Os shows de abertura da segunda noite do Angra no Tokio Marine Hall serviram para mostrar que o power metal brasileiro não precisa viver eternamente à sombra do chamado “Angraverso”. Storia e Hibria representam momentos diferentes dessa cena, mas têm algo em comum: a disposição de levar adiante um gênero que ainda encontra público no Brasil — e de buscar espaço para novos nomes.

Storia assume o “metal espadinha”

O Storia fez um show curto, mas intenso. A banda não demonstra qualquer preocupação em fugir do rótulo de “metal espadinha”. Pelo contrário: assume a expressão com orgulho e entrega exatamente aquilo que o público espera do gênero.

Os músicos mostraram segurança durante toda a apresentação, com destaque para o vocalista, que alcançou as notas agudas características do power metal com afinação e firmeza. Foi uma performance que mostrou que o Storia tem condições de ocupar seu espaço entre os novos nomes do gênero no país.

Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia

Hibria apresenta Angelo Parisotto

No Hibria, a noite teve dois elementos particularmente marcantes. O primeiro foi a apresentação de Angelo Parisotto em seu primeiro show na cidade de São Paulo após o lançamento do novo disco. O segundo foi a ausência de Abel Camargo, que precisou faltar por um problema familiar. Renato Osorio assumiu a guitarra e entregou uma apresentação impecável, acompanhando o alto nível dos demais instrumentistas.

Parisotto mostrou por que foi escolhido para essa nova fase do Hibria. Além de ter o carisma necessário para a banda, o vocalista demonstrou grande segurança, especialmente nos registros mais agudos. “Pulse”, do novo disco, foi um dos melhores exemplos: a música foi executada com precisão e potência, sem que as exigências do repertório parecessem representar um problema.

Renato Osório substituiu Abel Camargo no show de SP Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia

O desafio é diferente quando entram em cena alguns dos clássicos gravados originalmente por Iuri Sanson. Não porque Parisotto tenha dificuldade para cantar as músicas, mas porque a voz de Sanson possui características muito particulares. O antigo vocalista do Hibria tem um controle excepcional de determinadas regiões médio-graves em voz de cabeça, algo que sempre foi uma de suas marcas e que ajudou a definir a identidade de gravações importantes da banda.

Por isso, uma possibilidade interessante seria adaptar a tonalidade de algumas músicas mais antigas à voz de Parisotto. Não como resposta a uma limitação, mas justamente para permitir que o novo vocalista imprima sua própria identidade ao repertório, sem a necessidade de reproduzir exatamente uma abordagem vocal tão particular quanto a de Sanson.

Como fã do Hibria há mais de 20 anos, é impossível não terminar a apresentação com uma constatação: a banda precisa tocar mais em São Paulo. Tive a oportunidade de assistir ao grupo na cidade apenas duas vezes — primeiro com Victor Emeka e agora com Angelo Parisotto. Nunca tive a oportunidade de ver a formação com Iuri Sanson.

Isso torna ainda mais interessante acompanhar a atual fase da banda. O público claramente conhecia as músicas e reagiu aos clássicos, mas a resposta poderia ter sido mais intensa. Não por falta de qualidade da apresentação, e sim porque o Hibria ainda parece ter espaço para construir uma conexão maior com o público paulistano.

Storia e Hibria, cada uma à sua maneira, mostraram que existe vida no power metal brasileiro além do Angraverso. O gênero tem músicos, bandas e público suficientes para construir uma cena própria — e abrir espaço para que novos nomes cresçam sem depender exclusivamente da proximidade com os grandes nomes que ajudaram a consolidá-lo.

Foto de abertura: Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia