O segundo show consecutivo do Angra no Tokio Marine Hall, em São Paulo, teve casa lotada e um público que parecia ter vindo não apenas para celebrar os 25 anos de Rebirth, mas para reencontrar uma parte importante da própria juventude. Nas camisetas espalhadas pela pista, havia espaço para o Angra da era Rebirth e Temple of Shadows, mas também para Edu Falaschi em sua carreira solo. Era um sinal claro de que, para muita gente ali, aquelas músicas continuam associadas à voz que as apresentou ao mundo no começo dos anos 2000.

O contexto ajuda a explicar a força daquela nostalgia. Rebirth chegou em 2001, depois da turbulenta saída de André Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori e da reconstrução do Angra com uma nova formação. Naquele mesmo período, Edu Falaschi e seus companheiros do então recém-formado Shaman também ocupavam um espaço enorme entre os fãs brasileiros de metal. Ritual, lançado em 2002, tornou-se um fenômeno, enquanto o Angra buscava consolidar seu próprio renascimento com músicas como “Nova Era”, “Rebirth”, “Heroes of Sand” e “Running Alone”.

Mais de duas décadas depois, o reencontro no palco carregava justamente esse peso de memória. E o show de sábado foi diferente tanto da apresentação do Angra no Bangers Open Air, quando Alírio Netto, Edu Falaschi e Fabio Lione dividiram o palco, quanto do show realizado no Espaço Unimed como side show do festival. Desta vez, não havia uma espécie de reunião de vocalistas. Alírio esteve à frente da maior parte do repertório e foi, efetivamente, o vocalista principal da noite.

Quando Edu finalmente subiu ao palco, anunciado por Rafael Bittencourt em tom de amizade e respeito, o Angra já havia tocado por cerca de uma hora e meia. O reencontro, portanto, aconteceu quase como um segundo ato dentro do próprio show. Edu cantou quatro músicas: “Heroes of Sand”, “Rebirth” e “Nova Era”, além de dividir “Carry On” com Alírio no encerramento.



E foram justamente essas músicas que levaram o público ao êxtase. Em “Heroes of Sand”, “Rebirth” e “Nova Era”, Alírio deixou o palco para descansar a voz depois de enfrentar uma sequência particularmente exigente do repertório, incluindo músicas de Angels Cry como “Wuthering Heights” e “Stand Away”. A estratégia também permitiu que a participação de Edu tivesse o peso de um verdadeiro reencontro com o passado.

Edu ainda tem a voz para esse repertório

A resposta mais importante da noite veio da própria voz de Edu Falaschi. As notas mais agudas apareceram firmes e com segurança, algo especialmente significativo considerando o período de problemas relacionados ao refluxo que afetaram sua voz e o processo posterior de cirurgia e reaprendizado vocal.

Não era apenas uma questão de cantar as músicas novamente. Edu precisava provar, diante de um público que conhece essas gravações nota por nota, que ainda poderia assumir aquele repertório. E conseguiu.

Em “Nova Era” e “Rebirth”, principalmente, ficou evidente que a voz continua carregando características que fizeram daquele período do Angra uma referência para uma geração inteira. Há uma diferença natural entre o cantor de pouco mais de 20 anos que gravou Rebirth e o profissional que subiu ao palco em 2026, mas o essencial estava ali: potência, agudos e, sobretudo, familiaridade com aquelas melodias.

O momento mais simbólico, porém, ficou para o fim. “Carry On” era uma escolha praticamente inevitável e o público já esperava por ela. A surpresa estava na divisão dos vocais entre Edu e Alírio.

Foi uma boa síntese do que o Angra representa hoje: uma banda que precisa olhar para sua história sem ficar presa a ela. Alírio é, definitivamente, uma escolha acertada para enfrentar um repertório vocalmente brutal. Ao longo da noite, ele mostrou por que consegue sustentar músicas que estão entre as mais difíceis da discografia da banda.

Mas a participação de Edu revelou outra coisa.

O público quer mais

O show atendeu às expectativas dos fãs que esperavam ouvir novamente a voz de Edu Falaschi em músicas de Rebirth? Sim. Mas deixou um evidente gosto de quero mais.

Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia



Quatro músicas foram suficientes para provocar uma reação gigantesca. E talvez justamente por isso tenham deixado ainda mais clara a demanda por uma participação maior. Especialmente para quem não teve a oportunidade de acompanhar as apresentações do Angra com seus antigos vocalistas no Bangers Open Air, o reencontro deste sábado acabou funcionando quase como uma degustação.

É difícil não imaginar como seria uma turnê em que o Angra pudesse explorar diferentes fases de sua história com diferentes vocalistas, em uma dinâmica semelhante à que o Helloween adotou ao reunir Michael Kiske, Andi Deris e Kai Hansen. Não necessariamente como uma mudança de formação, mas como uma celebração da própria história da banda.

O público provavelmente compraria a ideia.

Porque o show de 3 de outubro mostrou duas coisas que não são necessariamente contraditórias. Primeiro: Alírio Netto é a escolha certa para manter vivo e tecnicamente viável o repertório do Angra. Segundo: existe uma parcela enorme do público que ainda quer ouvir Edu Falaschi cantando essas músicas.

O Angra não precisa escolher entre passado e presente. Talvez a grande oportunidade esteja justamente em transformar essa memória em algo novo.

E, depois de ouvir “Heroes of Sand”, “Rebirth”, “Nova Era” e “Carry On” novamente com Edu, ficou uma pergunta inevitável no ar: será que ainda veremos mais dessa reunião?

Crédito: Anderson Hildebrando @andersonh_fotografia