Em abril de 2026, o Bangers Open Air reuniu no Memorial da América Latina algumas das bandas mais pesadas do planeta. Arch Enemy, In Flames, Killswitch Engage, Within Temptation. No meio de um line-up de peso internacional, dois nomes brasileiros dividiram o palco com naturalidade e sem precisar de nenhuma apresentação adicional: Crypta e Malvada. Uma no death metal extremo, a outra no hard rock moderno. As duas formadas exclusivamente por mulheres. As duas tratadas como o que são: bandas de alto nível, sem adjetivo de gênero.

Esse momento não aconteceu do nada. Ele é o resultado de pelo menos quinze anos de uma cena feminina que cresceu na contramão do preconceito, dos palcos pequenos, das perguntas condescendentes em entrevistas e da invisibilidade sistemática. O que o Bangers Open Air de 2026 mostrou — e o Rock in Rio de setembro vai confirmar — é que essa cena não está mais pedindo espaço. Ela está ocupando. Este texto é sobre como chegamos até aqui.

Nervosa: a semente que brotou de São Paulo

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A história do metal feminino brasileiro moderno passa inevitavelmente pela Nervosa. Fundada em 2010 em São Paulo pela guitarrista Prika Amaral, a banda construiu ao longo de uma década uma carreira que nenhuma outra banda de thrash nacional — feminina ou masculina — havia alcançado até então: contrato com a Napalm Records, turnês pela Europa, participação em festivais como Wacken Open Air e Hellfest, e cinco álbuns de estúdio que respeitam o gênero sem condescendência.

Prika Amaral, guitarrista e vocalista da Nervosa, já definiu a banda como “luta pela mulher no metal.” Não é uma declaração vazia: durante anos, a Nervosa foi a prova viva de que uma banda de thrash metal extremo, saída de São Paulo, formada por mulheres, podia competir em pé de igualdade com qualquer coisa que viesse de fora. Quando a formação histórica com Fernanda Lira e Luana Dametto se desfez em 2020, a Nervosa não acabou — reinventou-se com uma formação internacional — e os caminhos que se abriram a partir dali tornaram a cena ainda maior.

Crypta: death metal sem teto de vidro

Em 25 de abril de 2020, após desgastar sua relação profissional, Fernanda Lira e Luana Dametto deixaram a Nervosa. No mês seguinte, em 20 de maio, anunciaram a formação de uma nova banda de death metal chamada Crypta. Junto com as guitarristas Tainá Bergamaschi e Sonia Anubis — esta última holandesa —, o quarteto foi anunciado pela Napalm Records e lançou em 2021 o debut Echoes of the Soul.

O disco não foi recebido com a simpatia reservada para novatas. Foi avaliado como um álbum de death metal sólido, brutal e tecnicamente competente — ponto final. Shades of Sorrow, de 2023, aprofundou esse caminho. Mais pesado, mais focado, com produção superior. A crítica europeia — que raramente concede o benefício da dúvida para bandas brasileiras — respondeu positivamente. As turnês seguiram: Europa, Estados Unidos, festivais de grande porte.

A força de death metal toda feminina formada por Fernanda Lira, Luana Dametto, Tainá Bergamaschi e Victoria Villarreal se apresentou no Shades of Sorrow: Final Rites European Summer Tour 2026, percorrendo o continente e se apresentando ao lado de Sepultura, Kittie e Slaughter to Prevail, além de festivais como Hellfest, Abyss Festival, Rockharz e Bloodstock.

Em paralelo à turnê europeia, a Crypta está em processo de composição do seu terceiro álbum, com previsão de lançamento mundial no segundo semestre de 2026. É o disco mais aguardado da cena nacional do ano. A expectativa é que o material avance sobre o terreno já consolidado em Shades of Sorrow e empurre a banda para um nível ainda mais alto de visibilidade internacional.

Há algo especialmente significativo no modelo de turnê que a Crypta adotou em 2025 no Brasil. Na In the Other Side Tour, a banda excursionou somente ao lado de bandas com vocalistas mulheres — Hatefulmurder, Allen Key e Paradise Flames — numa celebração da força feminina no metal em 23 shows por todo o país. Não foi um gesto simbólico: foi uma declaração de que a cena tem tamanho, variedade e substância suficientes para se sustentar em turnê própria.

Malvada: o rock com atitude e em português

Foto: Divulgação

Se a Crypta ocupa o extremo pesado do espectro, a Malvada representa o hard rock moderno — e faz isso com uma clareza de identidade que poucos grupos nacionais alcançam tão cedo na carreira.

Formada por Indira Castillo (vocal), Juliana Salgado (bateria), Bruna Tsuruda (guitarra) e Rafaela Reoli (baixo), a Malvada já se apresentou no Rock in Rio, no Angra Fest e no Best of Blues and Rock, dividindo palco com nomes como Tom Morello, Pitty e Extreme. Em 2025, lançou seu segundo álbum pelo selo italiano Frontiers Records.

O disco, produzido pelo tricampeão do Grammy Latino Giu Daga, é um salto em relação ao trabalho anterior. A guitarra de Bruna Tsuruda corta como lâmina, o baixo de Rafaela Reoli bate forte no peito, a bateria de Juliana Salgado mantém a pulsação firme e orgânica, e a voz de Indira Castillo mostra força, personalidade e controle. Rasgada, intensa, sensual. Algumas faixas em português, outras em inglês — uma escolha que reflete o alcance que a banda constrói sem abrir mão da identidade nacional.

No Bangers Open Air 2026, a Malvada reafirmou a força do rock cantado em português, com uma nova formação que mistura composições em inglês e em português.

Em setembro, elas sobem ao Palco Sunset do Rock in Rio ao lado de Bad Omens e Poppy — e com a participação especial da cantora Day Limns em três músicas. “Estar neste festival é a realização de um sonho, ainda mais dividindo o mesmo dia com grandes nomes do metal moderno, que influenciam diretamente o nosso som”, declarou a baixista Rafaela Reoli. O mesmo dia tem Avenged Sevenfold e Bring Me The Horizon no Palco Mundo. A Malvada não está na margem desse evento — está no centro dele.

A nova onda: outras nomes para conhecer

A Crypta e a Malvada são as mais visíveis, mas a cena vai muito além delas. A turnê brasileira da Crypta em 2025 funcionou também como uma vitrine para bandas que merecem mais atenção:

Hatefulmurder — death metal extremo com Angélica Burns nos vocais. A banda esteve ao lado da Crypta nos 23 shows pelo Brasil e já tem histórico de aparições internacionais. Angélica Burns participou de uma performance especial da SepulQuarta, ao lado de Fernanda Lira e Mayara Puertas, cantando “Hatred Aside”, do álbum Against do Sepultura. É o tipo de conexão que mostra que essa geração está integrada ao tecido histórico do metal nacional.

Allen Key — heavy metal com elementos sinfônicos, com Karina Menascé nos vocais. Uma das bandas com mulheres na formação que vêm ganhando destaque e reconhecimento na cena brasileira. A presença nos shows da Crypta trouxe à banda uma exposição significativa para um público que já conhece o metal extremo e está disposto a explorar.

Paradise Flames — a vocalista Nienna está à frente do Paradise Flames com uma performance death/black que mistura melodia e profanação, fortalecendo a presença feminina no metal moderno e extremo.

Nervosa — sim, a banda que abriu o caminho segue ativa. Com uma formação internacional liderada por Prika Amaral, a Nervosa continua lançando material e turnês, e mantém um dos nomes mais respeitados no thrash extremo dentro e fora do Brasil.

O que mudou: de exceção a referência

Por muito tempo, a presença de mulheres no metal brasileiro foi tratada como curiosidade. A pergunta era sempre a mesma: “Como é ser uma mulher num universo masculino?” A resposta, agora, está sendo dada nos palcos — e ela dispensa palavras.

Ver tantas bandas com integrantes femininas em destaque, ocupando horários nobres e palcos principais, é o reflexo de um mercado que finalmente entendeu que o talento independe de gênero. Mais do que cotas ou representatividade simbólica, o que se viu no Bangers Open Air 2026 foi uma entrega artística de altíssimo nível.

Essa mudança não é apenas estética. Ela é estrutural. A Crypta assinou com a Napalm Records — uma das selos mais importantes do metal extremo no mundo — não por ser uma banda de mulheres, mas por ter apresentado um demo que convenceu a gravadora. A Malvada fechou com a Frontiers Records italiana pela mesma razão: o som. O contrato com o Grammy Latino Giu Daga veio porque o trabalho justificava. Em cada etapa, o mérito veio antes da narrativa.

O que muda com o tempo não é a qualidade das músicas — essas bandas sempre foram boas. O que muda é a estrutura que as recebe: mais festivais dispostos a reservar horários nobres, mais selos dispostos a assinar, mais público disposto a comparecer sem o filtro do gênero.

O que vem pela frente

O terceiro álbum da Crypta, previsto para o segundo semestre de 2026, vai ser o maior teste até agora. Dois discos sólidos abriram espaço; o terceiro vai definir se a banda consegue dar o salto para o próximo nível — o das bandas que não são só respeitadas dentro do nicho, mas que constroem um legado duradouro.

A Malvada, por sua vez, chega ao Rock in Rio num momento de aceleração. Um festival desse tamanho, com toda a cobertura que ele gera, pode mudar significativamente o alcance de uma banda em questão de semanas. O set no Palco Sunset em setembro pode ser o ponto de inflexão da carreira delas.

E além delas, a cena segue crescendo. A turnê da Crypta em 2025 mostrou que Hatefulmurder, Allen Key e Paradise Flames têm fôlego e proposta. Outras bandas estão surgindo. O espaço que foi aberto pela Nervosa nos anos 2010, alargado pela Crypta e pela Malvada nos anos 2020, começa a ser preenchido por uma geração que não precisa mais se justificar.

Elas não reescrevem a história do metal brasileiro pedindo licença. Reescrevem tocando.