Muito antes de se tornar conhecido mundialmente com o Angra e consolidar seu nome como um dos maiores vocalistas da história do heavy metal, Andre Matos era apenas um adolescente apaixonado por música clássica e heavy metal em uma São Paulo que ainda dava seus primeiros passos na cena do rock pesado.
Nascido em 14 de setembro de 1971, Andre começou a estudar piano ainda criança. A formação musical erudita, que mais tarde se tornaria uma de suas marcas registradas, já estava presente desde cedo. Mas foi na adolescência que ele encontrou o caminho que mudaria sua vida e, de certa forma, a história do metal brasileiro.
Em 1985, aos 13 anos de idade, Andre se juntou a um grupo de jovens músicos formado pelos irmãos Pit Passarell e Yves Passarell, além do guitarrista Felipe Machado e do baterista Cássio Audi. A história começou por causa de uma bola que caiu no condomínio vizinho e conectou Andre aos futuros colegas de banda.
Nascia o Viper, uma banda formada por adolescentes que compartilhavam a admiração por nomes como Iron Maiden, Helloween, Judas Priest e Black Sabbath. O primeiro show aconteceu no tradicional teatro Lira Paulistana, em São Paulo, em abril daquele ano.
Curiosamente, Andre não entrou para a banda como um vocalista experiente. Seu principal instrumento era o piano. Como o grupo precisava de alguém para assumir os vocais, ele acabou aceitando a função. A decisão mudaria para sempre os rumos do heavy metal nacional.
Ainda em 1985, o Viper gravou sua primeira demo, The Killera Sword. O material circulou entre fãs e revistas especializadas, ajudando a construir a reputação da banda dentro do underground brasileiro. Embora rudimentar, a gravação já mostrava características que se tornariam marcas registradas do grupo: guitarras rápidas, influências do metal europeu e a voz aguda e potente de Andre Matos.
Soldiers of Sunrise: o primeiro grande passo
O reconhecimento conquistado com a demo abriu portas para que o Viper gravasse seu primeiro álbum de estúdio. Em 1987, chegava às lojas Soldiers of Sunrise, considerado até hoje um dos discos fundamentais do heavy metal brasileiro.
O álbum apresentava uma banda ainda muito influenciada pela New Wave of British Heavy Metal e pelo power metal europeu. Faixas como “Knights of Destruction”, “Nightmares” e a épica “Soldiers of Sunrise” mostravam um grupo tecnicamente acima da média para músicos tão ovens. Andre, que tinha apenas 15 anos durante a gravação, impressionava pela extensão vocal e pela maturidade de sua interpretação.
O disco rapidamente chamou atenção fora do Brasil. Em uma época sem internet e sem a facilidade de divulgação atual, o Viper conseguiu algo raro para uma banda sul-americana: conquistar espaço entre fãs de metal na Europa e no Japão. O feito ajudou a colocar o nome de Andre Matos pela primeira vez no radar internacional.
Mais importante do que as vendas ou a repercussão imediata foi o impacto cultural do álbum. Soldiers of Sunrise ajudou a provar que era possível produzir heavy metal de padrão internacional no Brasil. Para muitos músicos da geração seguinte, o disco representou uma espécie de certificado de que o país podia competir com as grandes cenas europeias e norte-americanas.
Theatre of Fate: o álbum que mudou o rumo do Viper
Se Soldiers of Sunrise apresentou o Viper ao público do heavy metal, foi o álbum seguinte que transformou a banda em algo muito maior. Lançado em 1989, *Theatre of Fate* não apenas elevou o grupo a um novo patamar artístico como também revelou ao mundo a verdadeira dimensão do talento de Andre Matos.
Na época, o heavy metal passava por uma fase de transformação. Bandas como Helloween começavam a incorporar melodias mais sofisticadas e elementos da música clássica ao metal tradicional. Andre acompanhava atentamente esse movimento, mas sua formação erudita permitia que ele levasse a ideia ainda mais longe.
Diferentemente do álbum de estreia, que era fortemente baseado na energia e agressividade do heavy metal clássico, Theatre of Fate apresentava arranjos mais elaborados, estruturas complexas e uma abordagem muito mais melódica. Pela primeira vez, Andre teve espaço para inserir de maneira mais evidente as influências da música clássica que estudava desde criança.
O resultado foi um trabalho surpreendente para uma banda cujos integrantes ainda estavam na adolescência.
Logo na abertura, com “At Least a Chance”, o Viper já demonstrava uma maturidade incomum. Mas foi em faixas como “Living for the Night” e “Prelude to Oblivion” que a identidade artística de Andre começou a aparecer de forma mais clara. As linhas vocais deixaram de ser apenas agressivas ou agudas; passaram a ter dinâmica, interpretação e uma construção melódica que se tornaria uma de suas principais características ao longo da carreira.
O nascimento de um estilo
Hoje é comum associar Andre Matos ao metal melódico e ao power metal. No entanto, em 1989, esses estilos ainda estavam em formação. O que o vocalista fazia no Viper ajudou a estabelecer elementos que mais tarde seriam adotados por inúmeras bandas ao redor do mundo.
Seu canto combinava potência e técnica, mas também um senso melódico raro para o heavy metal da época. Em vez de simplesmente buscar notas altas, Andre construía melodias inspiradas por compositores eruditos e por bandas progressivas. Era uma abordagem muito diferente daquela adotada pela maioria dos vocalistas de metal do final dos anos 1980.
Ao mesmo tempo, o músico começou a explorar com mais profundidade o uso de teclados e atmosferas sinfônicas, algo que se tornaria uma marca registrada de toda sua trajetória artística.
Embora o termo “metal melódico” ainda não fosse amplamente utilizado, muitos fãs e jornalistas enxergam *Theatre of Fate* como uma das sementes do gênero, especialmente na América Latina.
Living for the Night: o primeiro clássico imortal
Entre todas as músicas do álbum, nenhuma teve impacto tão duradouro quanto “Living for the Night”.
A canção rapidamente se tornou o maior sucesso da carreira inicial do Viper e permanece até hoje como um dos maiores clássicos da história do heavy metal brasileiro. Sua combinação de melodia acessível, refrão marcante e interpretação emocional ajudou a ampliar o alcance da banda para além do público tradicional do metal.
Décadas depois, a música continuaria sendo presença constante nos shows de Andre Matos, mesmo após sua saída do Viper.
Mais do que um sucesso isolado, “Living for the Night” mostrou que era possível criar músicas pesadas sem abrir mão da sofisticação musical. Essa ideia seria levada ao extremo alguns anos depois, quando Andre fundasse o Angra.
Reconhecimento internacional
O impacto de Theatre of Fate foi muito superior ao do álbum de estreia.
O disco recebeu atenção especial no Japão, mercado que já demonstrava grande receptividade ao heavy metal melódico. Parte desse sucesso foi impulsionada por ‘Moonlight’, que se tornou uma das músicas mais populares do álbum entre os fãs japoneses e ajudou a estabelecer a reputação internacional da banda.
A banda também começou a ser mencionada em revistas especializadas da Europa, algo extremamente raro para um grupo brasileiro naquele período.
Para muitos fãs estrangeiros, o Viper representava uma novidade inesperada: uma banda sul-americana capaz de produzir um heavy metal com qualidade comparável à de grupos europeus.
Essa visibilidade internacional foi fundamental para a carreira de Andre Matos. Pela primeira vez, seu nome passou a ser acompanhado de expectativas que iam muito além da cena brasileira.
O fenômeno de “Moonlight” no Japão
Embora “Living for the Night” tenha se tornado o maior clássico do Viper no Brasil, foi outra faixa de Theatre of Fate que ajudou a consolidar a reputação internacional da banda: “Moonlight”.
Com sua introdução baseada em piano, atmosfera melancólica e forte influência da música clássica, a canção se destacava em meio ao heavy metal da época. A composição evidenciava uma característica que se tornaria uma marca registrada de Andre Matos: a capacidade de unir peso, melodia e sofisticação musical de forma natural.
No Japão, país que vivia uma verdadeira febre pelo metal melódico no final dos anos 1980, “Moonlight” encontrou um público especialmente receptivo. A música ganhou destaque entre os fãs locais e contribuiu para transformar o Viper em uma das primeiras bandas brasileiras de heavy metal a conquistar reconhecimento significativo no mercado japonês.
O sucesso foi tão expressivo que muitos admiradores da banda no exterior passaram a associar o nome de Andre Matos diretamente à faixa. Para uma geração de fãs japoneses, “Moonlight” foi o primeiro contato com aquele vocalista brasileiro que, poucos anos depois, alcançaria projeção mundial com o Angra.
Mais de três décadas após seu lançamento, a música continua sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da fase inicial de Andre Matos. Sua combinação de piano, melodias marcantes e interpretação emocional antecipava diversos elementos que se tornariam centrais em sua carreira futura.
O início das divergências
Paradoxalmente, o álbum que consolidou o Viper também marcou o começo de tensões internas.
Enquanto Andre demonstrava crescente interesse por arranjos sofisticados, música clássica e composições mais ambiciosas, outros integrantes buscavam uma direção mais direta e próxima do hard rock e do heavy metal tradicional.
As diferenças artísticas ainda não eram públicas, mas começavam a se tornar cada vez mais evidentes nos bastidores.
O sucesso de Theatre of Fate colocou a banda diante de uma decisão importante: seguir aprofundando a abordagem melódica e sinfônica ou buscar um caminho mais simples e comercial.
A resposta para essa pergunta acabaria mudando não apenas o futuro do Viper, mas toda a história do heavy metal brasileiro.
A formação acadêmica e o nascimento de uma nova visão musical
A saída de Andre Matos do Viper, em 1990, marcou o fim de um capítulo importante de sua carreira, mas também abriu caminho para um período de crescimento artístico que acabaria mudando a história do heavy metal brasileiro.
Naquele momento, Andre já era reconhecido como um dos vocalistas mais talentosos do país. Mesmo assim, ele decidiu seguir um caminho pouco comum para músicos de metal da época: aprofundar sua formação acadêmica.
Desde a infância, a música erudita fazia parte de sua vida. O piano havia sido seu primeiro instrumento e seu interesse por compositores clássicos crescia na mesma velocidade que sua paixão pelo rock e pelo heavy metal.
Após deixar o Viper, Andre passou a dedicar boa parte de seu tempo aos estudos formais de música. Ele cursou Música na Faculdade de Artes Santa Marcelina e concluiu seu bacharelado em Regência Orquestral e Composição Musical na Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM).
Essa formação teve um impacto profundo em sua maneira de compor. Enquanto muitos músicos de metal construíam suas músicas a partir de riffs de guitarra, Andre passou a enxergar as composições de forma quase orquestral. Ele pensava em camadas melódicas, harmonias complexas e arranjos que dialogavam tanto com o heavy metal quanto com a música clássica.
Não por acaso, anos mais tarde, músicas como “Carry On”, “Nothing to Say”, “Make Believe” e “Holy Land” apresentariam estruturas incomuns para o metal da época, refletindo diretamente os conhecimentos que ele adquiriu durante sua formação acadêmica.
O encontro com Rafael Bittencourt
Foi durante esse período de estudos e reconstrução artística que Andre conheceu um jovem guitarrista chamado Rafael Bittencourt.
Rafael compartilhava muitas das influências musicais de Andre. Assim como ele, admirava bandas como Iron Maiden, Helloween e Queensrÿche, mas também demonstrava interesse por elementos mais sofisticados de composição.
Os dois rapidamente perceberam que possuíam objetivos semelhantes. Não queriam apenas formar mais uma banda de heavy metal. O plano era criar algo capaz de competir internacionalmente com os grandes nomes do gênero.
Naquele início dos anos 1990, a ideia parecia ambiciosa. O Brasil ainda possuía poucas bandas com projeção global. O Sepultura começava a conquistar espaço no exterior, mas o cenário para grupos de metal melódico praticamente não existia.
Andre e Rafael acreditavam que era possível mudar essa realidade.
A entrada de André Linhares
Outro personagem importante nesse período foi o tecladista André Linhares.
Assim como Andre Matos, Linhares possuía formação musical e ajudou a dar forma às primeiras ideias do projeto que começava a nascer. Sua participação foi fundamental nos estágios iniciais de composição, quando o grupo ainda buscava definir sua identidade sonora.
Os primeiros ensaios e composições mostravam uma direção muito diferente daquela seguida pelo Viper. Em vez de priorizar apenas velocidade e agressividade, as novas músicas incorporavam elementos sinfônicos, passagens inspiradas na música erudita e arranjos mais elaborados.
Era exatamente o tipo de abordagem que Andre vinha desenvolvendo desde sua saída da banda anterior.
O embrião do Angra
Entre 1990 e 1991, o projeto começou a ganhar forma. Ao lado de Rafael Bittencourt, Andre Matos passou a reunir músicos que compartilhavam a mesma visão artística. O objetivo era criar uma banda capaz de unir a técnica do metal europeu, a riqueza harmônica da música clássica e elementos que refletissem a identidade brasileira.
A proposta era ousada para a época.
Poucas bandas no mundo exploravam esse tipo de combinação de forma consistente. Menos ainda vinham de fora da Europa ou dos Estados Unidos.
Mas o período de estudos havia dado a Andre as ferramentas necessárias para transformar essa ideia em realidade. Sua experiência acadêmica não seria apenas um detalhe em sua biografia; ela se tornaria a base conceitual de tudo o que viria a seguir.
Quando o grupo finalmente assumiu o nome Angra, em 1991, Andre Matos não era mais apenas o ex-vocalista promissor do Viper. Ele havia se transformado no principal idealizador de um projeto que redefiniria os limites do heavy metal produzido no Brasil e abriria portas para uma geração inteira de músicos nacionais.
Angels Cry (1993): o nascimento de uma potência mundial
Quando o Angra surgiu no início dos anos 1990, o cenário do heavy metal vivia um período de transição. O grunge começava a dominar o mercado norte-americano, enquanto o metal melódico europeu ainda buscava consolidar sua identidade. Foi nesse contexto que Andre Matos, Rafael Bittencourt e seus companheiros decidiram apostar em uma proposta ousada: unir a técnica do metal europeu, a sofisticação da música clássica e a ambição de uma banda brasileira que sonhava conquistar o mundo.
A formação clássica de Andre teve papel central desde o início. Muitas das ideias que ele havia desenvolvido durante seus estudos de composição e regência começaram a aparecer nas primeiras músicas da banda. O resultado ficou evidente em Angels Cry, álbum de estreia lançado inicialmente no Japão em 1993 e posteriormente no restante do mundo. O disco foi gravado na Alemanha, sob produção de Charlie Bauerfeind e Sascha Paeth, dois nomes que se tornariam referências no power metal mundial.
Desde a abertura, com uma adaptação da “Sinfonia Inacabada” de Schubert, o álbum deixava claro que o Angra pretendia ir além dos limites tradicionais do heavy metal. Ao longo do disco surgiam referências a Paganini, Vivaldi e até Luiz Gonzaga, algo praticamente inédito para uma banda do gênero naquele momento. Grande parte dessas conexões refletia diretamente a visão artística de Andre Matos.
Mas foi em músicas como “Carry On”, “Time” e a faixa-título “Angels Cry” que o vocalista apresentou ao mundo aquilo que se tornaria sua principal marca registrada: uma combinação rara de potência, alcance vocal, interpretação dramática e conhecimento musical. Enquanto muitos cantores do gênero apostavam apenas em notas agudas, Andre construía melodias complexas e emocionalmente marcantes.
O sucesso foi imediato, especialmente no Japão. O mercado japonês rapidamente adotou o Angra como uma das revelações do metal melódico mundial. Para uma banda brasileira recém-formada, o feito parecia improvável. Em poucos meses, Andre Matos deixava de ser apenas uma promessa do Viper para se transformar em um dos vocalistas mais comentados da cena internacional.
Mais importante do que as vendas foi o impacto cultural do álbum. Angels Cry demonstrou que uma banda brasileira podia competir artisticamente com grupos europeus e norte-americanos. Para muitos fãs e músicos, aquele disco marcou o verdadeiro nascimento do power metal brasileiro.
Holy Land (1996): quando Andre Matos transformou o Brasil em um álbum de heavy metal
Se Angels Cry apresentou o Angra ao mundo, Holy Land foi o álbum que definiu sua identidade.
Lançado em 1996, o segundo disco da banda nasceu de uma pergunta simples, mas extremamente ambiciosa: como criar um álbum de heavy metal que soasse verdadeiramente brasileiro?
Até então, a maioria das bandas nacionais do gênero seguia modelos importados da Europa ou dos Estados Unidos. Andre Matos e Rafael Bittencourt queriam seguir outro caminho.
A ideia surgiu a partir da música “Holy Land”, composta por Andre. A partir dela, o grupo desenvolveu um conceito que explorava a formação cultural do Brasil, o encontro entre europeus, indígenas e africanos e as transformações ocorridas desde a chegada dos portugueses ao continente americano. O próprio Andre explicou posteriormente que o álbum não falava apenas sobre o Brasil como país, mas sobre sua cultura, suas misturas e sua identidade.
Era uma proposta extremamente incomum para o heavy metal da época. Enquanto muitas bandas do gênero escreviam sobre fantasia, batalhas medievais ou ficção, o Angra decidiu olhar para sua própria história.
O disco mais pessoal de Andre Matos
A influência de Andre Matos em Holy Land foi ainda maior do que em Angels Cry.
Além dos vocais, ele participou ativamente das composições, dos arranjos de teclado, dos arranjos orquestrais e da construção conceitual do álbum. Sua formação em composição e regência aparece em praticamente todas as faixas.
Pela primeira vez, o músico conseguiu unir de maneira completa suas três grandes paixões: o heavy metal, a música clássica e a cultura brasileira.
O álbum começa com “Crossing”, uma adaptação coral inspirada na obra do compositor renascentista Giovanni Pierluigi da Palestrina. Em seguida, a banda mergulha em uma jornada musical que mistura power metal, elementos progressivos, ritmos afro-brasileiros, influências indígenas e arranjos sinfônicos.
O resultado era algo que simplesmente não existia no mercado internacional.
A criação de uma identidade brasileira
Um dos aspectos mais revolucionários de Holy Land foi a incorporação de instrumentos e ritmos brasileiros ao heavy metal.
Durante as gravações, realizadas entre o Brasil e a Alemanha, a banda utilizou percussões brasileiras, flautas, berimbau, viola caipira, corais e diversos elementos folclóricos para construir a atmosfera do álbum. Essas gravações complementavam a estrutura tradicional formada por guitarras, baixo, bateria e teclados.
Mas o diferencial não estava apenas nos instrumentos.
Andre Matos enxergava o álbum como uma representação musical do encontro entre culturas que formaram o Brasil. Em músicas como “Holy Land”, por exemplo, os arranjos clássicos simbolizam a Europa, enquanto as percussões e elementos folclóricos representam as culturas que já existiam no território brasileiro.
Era uma abordagem sofisticada e incomum para o heavy metal dos anos 1990.
Nothing to Say, Carolina IV e Make Believe
Embora seja um álbum conceitual, Holy Land também apresentou algumas das composições mais importantes da carreira de Andre Matos.
“Nothing to Say” tornou-se um dos maiores clássicos do Angra. A combinação de agressividade, melodias marcantes e refrão poderoso ajudou a definir a sonoridade do grupo durante aquele período. A música se transformou em presença obrigatória nos shows e permanece como uma das canções mais lembradas pelos fãs.
Já “Carolina IV” mostrou uma faceta ainda mais ambiciosa da banda. Com mais de dez minutos de duração, a faixa mistura passagens acústicas, influências progressivas, elementos brasileiros e mudanças constantes de dinâmica. Muitos fãs a consideram uma das obras mais complexas já gravadas pelo Angra.
Em “Make Believe”, Andre entregou uma de suas interpretações mais emocionais. A música reforçou sua reputação como um vocalista capaz de combinar técnica e sensibilidade, algo que o diferenciava de grande parte dos cantores de metal da época.
O reconhecimento mundial
Assim como havia acontecido com Angels Cry, o Japão foi fundamental para o sucesso de Holy Land.
O álbum repetiu o excelente desempenho comercial do antecessor e conquistou novamente a certificação de ouro no mercado japonês. A repercussão consolidou o Angra como uma das bandas mais importantes do power metal mundial durante a década de 1990.
Ao mesmo tempo, a crítica especializada passou a enxergar o grupo como algo mais do que uma simples revelação do metal melódico. O Angra agora tinha uma identidade própria.
Para muitos fãs e jornalistas especializados, Holy Land continua sendo o ponto mais alto da carreira artística de Andre Matos. O disco não apenas demonstrou sua capacidade como vocalista, mas também revelou seu talento como compositor, arranjador e idealizador de conceitos musicais complexos.
Mais de três décadas depois de seu lançamento, o álbum segue sendo apontado como uma das obras mais importantes da história do heavy metal brasileiro e um dos trabalhos mais influentes já produzidos por uma banda latino-americana.
Fireworks (1998): o fim de uma era
Depois da ambição artística de Holy Land, muitos fãs imaginavam que o Angra continuaria aprofundando a mistura entre heavy metal, música clássica e elementos brasileiros. O que veio a seguir, porém, foi um movimento em direção oposta.
Lançado em julho de 1998, Fireworks apresentou uma banda mais direta, mais pesada e menos experimental. Os ritmos brasileiros e as influências folclóricas que haviam marcado o álbum anterior praticamente desapareceram, dando lugar a uma sonoridade mais próxima do heavy metal tradicional e do power metal europeu. A produção ficou a cargo do britânico Chris Tsangarides, conhecido por trabalhos com Judas Priest, Black Sabbath e Bruce Dickinson. A escolha do produtor refletia exatamente o que o grupo buscava naquele momento: um som mais orgânico, mais agressivo e menos dependente de camadas de teclados e arranjos complexos.
Embora a mudança tenha surpreendido parte dos fãs, ela não representava uma ruptura com a identidade do Angra. Na prática, o álbum mostrou uma banda tentando equilibrar suas raízes no heavy metal clássico com a sofisticação musical construída nos trabalhos anteriores.
Um álbum marcado por composições mais individuais
Nos bastidores, entretanto, a situação era diferente daquela vivida durante a criação de Angels Cry e Holy Land.
Com o crescimento da banda e o sucesso internacional, os processos criativos passaram a se tornar mais fragmentados. As composições deixaram de nascer principalmente da colaboração entre os integrantes e passaram a refletir mais claramente as ideias individuais de cada músico. Andre Matos, por exemplo, assinou sozinho músicas como “Wings of Reality”, “Lisbon” e “Speed”. Rafael Bittencourt também apresentou composições próprias, enquanto outras faixas nasceram de parcerias menores dentro da banda.
Essa mudança refletia algo que já vinha acontecendo há algum tempo: os integrantes começavam a enxergar o futuro artístico do grupo de maneiras diferentes.
Lisbon e Paradise: dois retratos de Andre Matos
Entre as músicas do álbum, duas ajudam a entender o momento vivido por Andre Matos.
A primeira é “Lisbon”, lançada como principal single do disco. A canção combina elementos de balada com passagens pesadas e apresenta uma das interpretações vocais mais emotivas de sua passagem pelo Angra. Um detalhe curioso é que ela contém um raro solo de teclado executado pelo próprio Andre, evidenciando novamente a influência de sua formação erudita dentro da banda. A música se tornou uma das canções mais populares da fase clássica do grupo.
No documentário sobre sua vida, produzido por Anderson Bellini, Matos conta que a introdução memorável de “Lisbon” surgiu a partir do som de um despertador, provando que a inspiração musical pode vir mesmo dos lugares mais inesperados.
Já “Paradise” representa talvez o ápice do compositor Andre Matos dentro do álbum. Com estrutura elaborada, mudanças de dinâmica e forte carga emocional, a faixa é frequentemente apontada por fãs e integrantes como uma das melhores músicas de Fireworks. Anos depois, Rafael Bittencourt afirmaria publicamente sua admiração pela composição, considerada por muitos um dos pontos altos do disco.
O maior momento internacional do Angra
Paradoxalmente, enquanto os conflitos internos aumentavam, o Angra vivia seu período de maior exposição internacional.
A turnê de Fireworks levou a banda a alguns dos principais festivais de heavy metal do mundo. O grupo passou por eventos como Wacken Open Air, Dynamo Open Air, Gods of Metal e Monsters of Rock, consolidando uma reputação construída ao longo de quase uma década de trabalho.
Foi também durante essa fase que aconteceu um dos momentos mais marcantes da carreira de Andre Matos.
Em janeiro de 1999, durante um show em Paris, Bruce Dickinson subiu ao palco para cantar clássicos do Iron Maiden ao lado do Angra. Para Andre, que sempre citou Dickinson como uma de suas maiores influências, aquela participação representou a realização de um sonho de adolescência. Mais tarde, ele descreveria o episódio como um dos momentos mais emocionantes de toda a sua vida musical.
A ruptura que parecia inevitável
Apesar do sucesso da turnê, os problemas internos não desapareceram.
Anos depois, integrantes da banda revelariam que Andre chegou a considerar deixar o grupo antes mesmo da gravação de Fireworks. As divergências artísticas, o desgaste causado pelas turnês e os conflitos envolvendo a gestão da carreira do Angra vinham se acumulando desde o período posterior a Holy Land. Em determinado momento, a banda chegou até a ensaiar com Edu Falaschi como possível substituto do vocalista. A reconciliação permitiu a gravação do álbum, mas não resolveu as questões que existiam nos bastidores.
Quando a turnê mundial chegou ao fim, a separação tornou-se inevitável.
Em 2000, Andre Matos deixou oficialmente o Angra ao lado do baixista Luis Mariutti e do baterista Ricardo Confessori. Chegava ao fim a formação responsável por Angels Cry, Holy Land e Fireworks, três álbuns que ajudaram a colocar o heavy metal brasileiro no mapa mundial.
Para os fãs, parecia o encerramento de uma história extraordinária. Na prática, porém, era apenas o início de um novo capítulo. Poucos meses depois, Andre Matos começaria a construir outra banda que marcaria profundamente sua carreira: o Shaman.
Virgo: o laboratório criativo que antecipou o futuro de Andre Matos
Entre o fim de sua passagem pelo Viper e o surgimento do Angra, Andre Matos viveu um período de intensa transformação artística.
Enquanto aprofundava seus estudos em composição e regência, o músico também buscava novas formas de expressar ideias que não se encaixavam completamente no universo do heavy metal tradicional. Foi nesse contexto que nasceu o Virgo, projeto criado ao lado do guitarrista e compositor Sascha Paeth.
Hoje conhecido mundialmente por seu trabalho como produtor de bandas como Avantasia, Edguy, Rhapsody, Kamelot e Angra, Paeth ainda construía sua reputação internacional quando conheceu Andre no início dos anos 1990.
Os dois desenvolveram rapidamente uma forte conexão musical.
Ambos compartilhavam interesse por música clássica, rock progressivo, hard rock e heavy metal melódico. Mais importante ainda, possuíam uma visão semelhante sobre a possibilidade de expandir os limites do metal tradicional.
Uma parceria internacional incomum
Diante do estágio inicial de desenvolvimento da cena nacional, as colaborações internacionais entre músicos brasileiros e europeus eram extremamente raras.
A internet ainda não existia como ferramenta de comunicação cotidiana, e projetos transcontinentais exigiam um nível de planejamento muito maior do que atualmente.
Mesmo assim, Andre e Sascha decidiram desenvolver um trabalho conjunto.
O resultado foi Virgo, álbum lançado em 2001.
Embora muitas vezes seja tratado como um projeto paralelo, o disco possui importância histórica considerável. Diversas ideias que mais tarde apareceriam em trabalhos do Angra, do Avantasia e da carreira solo de Andre já estavam presentes ali.
Um disco difícil de classificar
Uma das características mais interessantes de Virgo é justamente sua resistência a rótulos.
O álbum mistura hard rock, world music, rock progressivo, música clássica, metal melódico e até elementos do pop. Em vários momentos, a sonoridade se afasta completamente do heavy metal tradicional.
Isso permitiu que Andre explorasse facetas pouco conhecidas de sua voz, o que torna o disco especialmente interessante para quem estuda canto ou admira grandes vozes nacionais.
Ao longo do disco, ele alterna momentos de delicadeza, interpretação emocional e melodias mais acessíveis.
Para quem conhece apenas os trabalhos mais pesados de sua carreira, Virgo revela um lado diferente do cantor.
O disco apresenta uma atenção especial às harmonias, aos arranjos e à construção melódica. Em vez de depender exclusivamente de riffs ou demonstrações de virtuosismo, as músicas valorizam atmosfera e desenvolvimento temático.
É possível enxergar em Virgo o embrião de muitas ideias que seriam exploradas posteriormente em álbuns como Holy Land, Ritual e Time to Be Free.
A combinação entre sofisticação harmônica e acessibilidade melódica, que se tornaria uma marca registrada de Andre Matos, já estava claramente presente.
Um projeto cult entre os fãs
Mais do que um simples experimento, o Virgo funcionou como um laboratório criativo onde Andre pôde testar ideias que mais tarde seriam desenvolvidas em escala muito maior.
O projeto também chancelou a amizade e a colaboração profissional que continuaria ao longo das décadas seguintes. Sascha Paeth permaneceria ligado a diversos momentos importantes da carreira de Andre Matos, seja como produtor, compositor ou parceiro criativo.
O que parecia apenas um trabalho experimental acabou se tornando um dos primeiros sinais do artista que Andre estava prestes a se tornar.
Ritual (2002): a reconstrução após o fim do Angra
Quando Andre Matos deixou o Angra em 2000, muitos fãs acreditaram que sua trajetória havia chegado ao auge. Afinal, ele havia ajudado a transformar uma banda brasileira em referência mundial do metal melódico e participado de três álbuns considerados clássicos do gênero.
Mas o vocalista tinha outros planos.
Poucos meses após sua saída, Andre se reuniu novamente com dois antigos companheiros do Angra: o baixista Luis Mariutti e o baterista Ricardo Confessori. O Hugo Mariutti, irmão de Luís, se uniu ao grupo, que teria apenas um guitarrista e sonoridade mais direta. Nascia o Shaman, banda que rapidamente se tornou um dos projetos mais aguardados da cena brasileira.
O interesse do público era enorme. Pela primeira vez, os fãs poderiam descobrir qual seria o próximo passo criativo de Andre Matos após o rompimento com a banda que ele havia ajudado a construir.
A resposta veio em 2002.
Um álbum conceitual inspirado em uma jornada real
Lançado em junho daquele ano, Ritual mostrou que Andre Matos não pretendia repetir a fórmula do Angra.
Embora o álbum mantivesse elementos do power metal e do metal melódico, sua proposta era diferente. O disco foi inspirado em elementos do continente sul-americano, especialmente pela região andina. O conceito explorava temas ligados à espiritualidade, às culturas ancestrais e à conexão entre o homem e a natureza.
Era um tema que dialogava diretamente com uma característica presente em toda a carreira de Andre: o interesse por culturas, história e simbolismos. Vale lembrar que o álbum Holy Land tem até mesmo uma música chamada “The Shaman”.
Ao invés de criar um álbum focado apenas em velocidade e técnica, o Shaman apostou em atmosferas, melodias marcantes e uma forte carga emocional. Alguns chamam o estilo criado pela banda de mystic metal.
A maturidade de Andre Matos como compositor
Se Holy Land havia mostrado o potencial criativo de Andre, Ritual apresentou um artista ainda mais maduro.
Livre dos conflitos que marcaram os últimos anos do Angra, ele assumiu um papel central na construção da identidade da nova banda. Sua experiência como compositor, tecladista, arranjador e vocalista aparece em praticamente todas as faixas do álbum.
A sonoridade continuava sofisticada, mas agora parecia mais equilibrada. As influências eruditas permaneciam presentes, porém integradas de maneira mais natural às composições.
O resultado foi um disco acessível para novos ouvintes, sem abrir mão da complexidade que os fãs de Andre Matos esperavam.
Fairy Tale: o maior sucesso popular de sua carreira
Embora o álbum inteiro tenha sido bem recebido, uma música acabou se destacando acima de todas as outras.
“Fairy Tale” tornou-se rapidamente um fenômeno.
Com uma melodia marcante, refrão emocional e uma interpretação vocal impecável, a faixa ultrapassou os limites do público tradicional do heavy metal. Seu alcance aumentou ainda mais quando a música foi incluída na trilha sonora da novela O Beijo do Vampiro, da TV Globo.
Para muitos brasileiros, aquele foi o primeiro contato com a voz de Andre Matos.
A exposição nacional proporcionada pela novela levou o Shaman a um nível de popularidade que poucas bandas brasileiras de metal haviam alcançado até então. Pela primeira vez, Andre era reconhecido não apenas pelos fãs do gênero, mas também pelo público geral.
Carry On ganha uma nova vida
Outro momento importante do período foi a regravação de “Carry On” no álbum e DVD “RituAlive”.
Originalmente lançada pelo Angra em Angels Cry, a música era uma das composições mais associadas à imagem de Andre Matos. Durante a turnê de Ritual, ela voltou ao repertório e passou a ser interpretada sob uma nova perspectiva.
Para muitos fãs, aquilo representava uma espécie de reencontro entre o vocalista e uma parte importante de sua própria história.
O público respondia de forma entusiasmada, transformando a música em um dos momentos mais aguardados dos shows.
O sucesso de Ritual
Com o lançamento do álbum, o Shaman rapidamente conquistou espaço no Brasil, na Europa, na América Latina e no Japão.
A crítica especializada recebeu o disco de forma positiva. Muitos jornalistas destacaram a capacidade da banda de seguir um caminho próprio sem se tornar uma simples continuação do Angra.
Para Andre Matos, o sucesso tinha um significado especial.
Depois de uma saída traumática de sua antiga banda, ele havia conseguido provar que sua criatividade e seu talento não dependiam de um único projeto. Pelo contrário: Ritual demonstrava que ele continuava sendo um dos principais arquitetos do metal melódico mundial.
Mais do que isso, o álbum mostrou um artista disposto a evoluir.
Se Angels Cry representou o nascimento de um fenômeno, Holy Land sua obra-prima criativa e Fireworks o encerramento de uma era, Ritual foi a prova definitiva de que Andre Matos ainda tinha muito a oferecer.
Para muitos fãs, aquele era o início de uma terceira fase tão importante quanto as duas primeiras.
A música que quase ficou esquecida
O sucesso de “Fairy Tale” costuma ser associado ao álbum Ritual, mas a história da música começou alguns anos antes, ainda durante as gravações de Fireworks.
Segundo relatos de Luis Mariutti e Rafael Bittencourt, Andre Matos já havia apresentado uma versão inicial da composição para o Angra durante o processo de seleção de repertório do álbum de 1998. Naquele momento, porém, a música era bastante diferente da versão que o público conheceria posteriormente. Ela possuía uma abordagem mais medieval, com arranjos inspirados em música renascentista, elementos folclóricos e uma atmosfera que lembrava as composições mais épicas de Andre.
O problema é que a proposta não agradou ao produtor Chris Tsangarides. Conhecido por trabalhos com bandas como Judas Priest, Black Sabbath e Bruce Dickinson, o produtor defendia uma sonoridade mais direta e tradicional para Fireworks. Segundo Luis Mariutti, Tsangarides reagiu com ironia ao ouvir a versão original da música, chegando a rir da proposta apresentada por Andre. O baixista relembrou anos depois que a reação incomodou bastante o vocalista.
Rafael Bittencourt também comentou o episódio em entrevistas posteriores. Segundo ele, o produtor considerava a composição excessivamente medieval para o direcionamento que a banda buscava naquele momento. O próprio Tsangarides teria criado um apelido depreciativo para a música (“fag tale”), numa demonstração clara de que não acreditava em seu potencial dentro do álbum.
Além da resistência do produtor, havia outro fator. Fireworks já possuía diversas faixas mais lentas ou melódicas em desenvolvimento, como “Lisbon”, “Gentle Change” e a bônus japonesa “Rainy Nights”. Com espaço limitado no repertório, “Fairy Tale” acabou ficando de fora do disco.
O que ninguém imaginava era que aquela decisão acabaria se tornando uma das histórias mais curiosas da carreira de Andre Matos.
Alguns anos depois, durante a preparação do primeiro álbum do Shaman, Ricardo Confessori sugeriu que a banda trabalhasse em uma grande balada. Andre então resgatou a composição descartada. O grupo reformulou os arranjos, reduziu parte dos elementos medievais da versão original e transformou a música na emocionante balada que seria lançada em Ritual.
O resultado foi surpreendente. “Fairy Tale” tornou-se não apenas o maior sucesso comercial da história do Shaman, mas também uma das músicas mais populares de toda a carreira de Andre Matos. A canção ganhou espaço em rádios, entrou na trilha sonora da novela O Beijo do Vampiro e apresentou sua voz a um público muito maior do que o universo tradicional do heavy metal.
De certa forma, a trajetória de “Fairy Tale” resume a própria carreira de Andre Matos. Uma composição considerada ousada demais por alguns acabou se transformando em um clássico justamente por causa das características que a tornavam diferente.
Reason (2005): o álbum mais pesado da carreira de Andre Matos no Shaman
Depois do enorme sucesso de Ritual, muitos fãs imaginavam que o próximo passo do Shaman seria aprofundar a fórmula que havia transformado a banda em um fenômeno. O caminho escolhido, porém, foi outro.
Lançado em 2005, Reason apresentou um Shaman mais pesado, mais direto e menos dependente dos elementos sinfônicos que haviam marcado o álbum de estreia. Em vez de expandir as influências folclóricas e atmosféricas de Ritual, a banda decidiu voltar sua atenção para as raízes do heavy metal tradicional e a elementos góticos que estavam em alta na cena do metal internacional. O resultado foi um disco que dividiu opiniões na época, mas que hoje é visto por muitos fãs como um dos trabalhos mais ousados da carreira de Andre Matos.
A influência inesperada do Korzus
Parte dessa transformação teve origem fora do universo do Shaman.
Em 2004, Andre participou da gravação de “Evil Sight”, faixa do álbum Ties of Blood, do Korzus, uma das bandas mais importantes do thrash metal brasileiro. O convite colocou o vocalista em contato com uma abordagem muito mais agressiva do que aquela que normalmente utilizava em seus próprios projetos.
Anos depois, ao falar sobre Reason, Andre reconheceu que a experiência teve impacto direto em sua evolução como cantor. Segundo ele, aquele período o incentivou a explorar novas possibilidades vocais, abandonar alguns vícios de interpretação e buscar uma abordagem mais agressiva e versátil. O objetivo já não era apenas impressionar com alcance vocal ou notas agudas, mas interpretar as músicas de maneira mais intensa e variada.
Essa mudança acabou influenciando o próprio processo de gravação do álbum. Algumas linhas vocais foram revisitadas durante a produção para refletir melhor a nova direção artística que a banda buscava.
Turn Away e a nova voz de Andre Matos
Nenhuma música representa melhor essa transformação do que “Turn Away”.
A faixa se tornou um dos símbolos de Reason justamente por apresentar um Andre Matos diferente daquele que o público havia conhecido em Angels Cry, Holy Land ou mesmo em Ritual. Sua interpretação é mais agressiva, mais grave em vários momentos e muito mais próxima do heavy metal tradicional do que do power metal melódico que o consagrou.
Para muitos fãs, “Turn Away” é a música que melhor resume a proposta do álbum.
Em vez de longas passagens orquestrais ou arranjos grandiosos, a canção aposta em riffs pesados, uma sonoridade mais seca e uma interpretação vocal carregada de intensidade. Era um lado de Andre Matos que raramente havia aparecido de forma tão evidente em discos anteriores.
Um Shaman mais enxuto e direto
O próprio Andre descreveu Reason como um esforço consciente para “enxugar” alguns excessos de Ritual.
Na visão da banda, o primeiro álbum representava um momento de transição após o fim do Angra. Agora, o objetivo era consolidar uma identidade própria. Os arranjos foram simplificados, as orquestrações reduzidas e as guitarras ganharam mais protagonismo. Hugo Mariutti teve participação importante nessa mudança, contribuindo para uma sonoridade mais pesada e moderna.
Isso não significa que o disco abandonou completamente a sofisticação musical característica de Andre Matos. Faixas como “Reason”, “Innocence”, “Rough Stone” e “Born to Be” continuam apresentando melodias elaboradas e estruturas cuidadosamente construídas. Mas tudo é apresentado de forma mais direta do que nos trabalhos anteriores.
O auge e o início do fim
Com Reason, o Shaman manteve a popularidade conquistada nos anos anteriores. A banda realizou grandes turnês e consolidou sua posição como um dos principais nomes do metal brasileiro dos anos 2000. Segundo registros da época, o grupo chegou a se apresentar para públicos de até dez mil pessoas, algo raro para bandas nacionais do gênero.
Entretanto, os mesmos anos que marcaram o auge artístico e comercial do Shaman também começaram a revelar tensões internas que, mais tarde, resultariam em uma nova ruptura.
Sem que os fãs soubessem, o capítulo seguinte da carreira de Andre Matos já estava sendo escrito.
Desentendimentos com o baterista Ricardo Confessori levariam Andre, Hugo e Luís para outro destino. Mais uma vez, Andre precisaria começar do zero.
Time to Be Free (2007): liberdade criativa e um novo começo
A saída do Shaman encerrou mais um capítulo importante na carreira de Andre Matos.
Pela segunda vez em menos de uma década, ele deixava uma banda que ajudou a transformar em referência no heavy metal mundial. A diferença era que, desta vez, não havia um novo grupo pronto para ocupar o espaço deixado pela ruptura.
Em vez de fundar outra banda, Andre decidiu seguir um caminho diferente.
Nascia a chamada carreira solo de Andre Matos.
O próprio músico, porém, costumava fazer uma observação importante sobre esse período. Apesar de o projeto levar seu nome, ele não o enxergava como um trabalho individual. Em diversas entrevistas, Andre afirmava que se tratava de uma banda completa, com participação ativa de todos os integrantes nas composições e nos arranjos. A escolha do nome foi principalmente uma decisão prática, aproveitando o reconhecimento internacional que ele havia conquistado ao longo dos anos.
O retorno de um velho conhecido
Entre os músicos que participaram da nova fase estava André “Zaza” Hernandes, guitarrista que possuía uma ligação histórica com Andre Matos.
Muito antes da carreira solo, Zaza já havia feito parte dos primeiros momentos da formação do Angra. Em 1992, ele entrou na banda para substituir André Linhares durante os estágios iniciais do grupo e participou da gravação da demo Reaching Horizons. Foi nesse período que ajudou a desenvolver músicas como “Evil Warning”, que mais tarde apareceria no álbum Angels Cry. Pouco depois, deixou o projeto e foi substituído por Kiko Loureiro.
Quinze anos mais tarde, os caminhos dos dois músicos voltariam a se cruzar.
Ao lado de Hugo Mariutti, Luis Mariutti, Fábio Ribeiro e Rafael Rosa, Zaza tornou-se uma peça importante da banda que acompanharia Andre Matos durante toda a sua carreira solo. Sua presença ajudava a criar uma curiosa conexão entre o início dos anos 1990 e aquela nova fase da trajetória do vocalista.
O álbum mais sinfônico de sua carreira
Lançado em 2007, Time to Be Free surgiu como um trabalho profundamente pessoal.
Grande parte das letras refletia os acontecimentos dos anos anteriores, incluindo o fim do Shaman e as transformações que Andre vivia naquele momento. O próprio título do álbum carregava um simbolismo evidente: representava tanto a liberdade criativa recém-conquistada quanto a possibilidade de controlar integralmente os rumos de sua música.
Musicalmente, o disco recuperava diversos elementos que os fãs associavam ao melhor momento de sua carreira. Os arranjos orquestrais voltavam a ocupar papel central, os teclados ganhavam destaque e as composições apresentavam estruturas longas e elaboradas.
Muitos admiradores enxergaram o álbum como uma espécie de continuação natural das ideias desenvolvidas em Holy Land e Ritual.
Anos depois, o próprio Zaza afirmaria que considerava Time to Be Free um trabalho do mesmo nível artístico de álbuns como Angels Cry e Ritual, embora a carreira solo nunca tenha recebido a mesma estrutura de divulgação e gestão que seus projetos anteriores.
Rio, A New Moonlight e o olhar para o passado
Entre as faixas mais marcantes do disco está “Rio”, que combina elementos progressivos, passagens sinfônicas e melodias grandiosas. A música recebeu reconhecimento internacional e foi premiada em votações dedicadas ao heavy metal.
O álbum também contou com “A New Moonlight”, cujo título faz referência direta a “Moonlight”, clássico gravado pelo Viper em Theatre of Fate quase vinte anos antes. Não se trata de uma continuação literal da música, mas de uma espécie de reencontro artístico com o jovem músico que Andre havia sido no final dos anos 1980.
Ao revisitar elementos melódicos, atmosferas épicas e influências clássicas, Andre parecia olhar para toda a própria trajetória e reunir em um único trabalho experiências adquiridas no Viper, no Angra e no Shaman.
Um novo capítulo
Time to Be Free foi bem recebido pela crítica especializada e pelos fãs, alcançando resultados expressivos em mercados importantes como Japão e Europa. Ainda assim, o cenário da indústria musical já era muito diferente daquele que existia durante os anos de ouro do Angra e do Shaman. O mercado fonográfico passava por profundas transformações, e promover uma carreira internacional tornava-se cada vez mais complexo.
Mesmo assim, o álbum cumpriu seu principal objetivo.
Ele mostrou que Andre Matos continuava evoluindo artisticamente e que sua criatividade permanecia intacta. Mais do que um recomeço, Time to Be Free foi a confirmação de que sua trajetória não dependia de uma única banda.
Pela terceira vez em sua carreira, ele havia conseguido se reinventar.
Mentalize (2009): peso, maturidade e um álbum que poderia ter ido ainda mais longe
Após a recepção positiva de Time to Be Free, Andre Matos e sua banda retornaram ao estúdio com uma proposta diferente.
Se o primeiro álbum solo funcionava como uma declaração de independência artística, Mentalize representava um artista mais confiante, disposto a explorar novas direções sem a necessidade de provar nada para ninguém. O resultado foi um disco mais pesado, mais direto e, em diversos momentos, mais agressivo do que seu antecessor.
Lançado em 2009, o álbum manteve elementos característicos da obra de Andre Matos, como arranjos sofisticados, melodias marcantes e influências sinfônicas. No entanto, as guitarras ganharam ainda mais protagonismo, enquanto a abordagem vocal passou a explorar diferentes texturas e intensidades. Faixas como “Power Stream”, “Shift the Night Away” e “Violence” mostravam um lado mais pesado do músico, sem abandonar completamente a identidade construída desde os tempos de Angra e Shaman.
O álbum mais pesado da carreira solo
Para muitos fãs, Mentalize é o trabalho mais pesado de toda a carreira solo de Andre Matos.
Parte dessa percepção vinha da própria evolução iniciada em Reason, quando o vocalista começou a explorar interpretações mais agressivas e uma sonoridade menos dependente de grandes arranjos orquestrais. Agora, essa tendência aparecia de forma ainda mais evidente.
A presença de Eloy Casagrande (Sliptknot, ex-Sepultura) na bateria também contribuiu para a energia do álbum. Mesmo muito jovem, o músico já demonstrava uma intensidade impressionante, ajudando a impulsionar faixas rápidas e agressivas que contrastavam com os momentos mais melódicos do disco.
Ao mesmo tempo, músicas como “Back to You”, “When the Sun Cried Out” e a faixa-título “Mentalize” mostravam que Andre continuava dominando como poucos o equilíbrio entre peso e emoção.
Um disco marcado pela pressão do calendário
Apesar da qualidade do material, Mentalize acabou enfrentando desafios durante sua produção.
Anos depois, Hugo Mariutti comentaria em entrevistas e transmissões ao vivo que o álbum sofreu com prazos apertados e que parte do processo foi acelerada pela necessidade de cumprir cronogramas definidos pela gravadora e pelos compromissos de lançamento. Segundo o guitarrista, algumas músicas poderiam ter recebido um tratamento mais refinado caso a banda tivesse tido mais tempo para trabalhar os arranjos e a produção.
Na visão de Hugo, isso fez com que determinadas faixas chegassem ao lançamento em um estado mais “cru” quando comparadas ao nível de detalhamento alcançado em Time to Be Free. Não se tratava de falta de qualidade, mas de uma produção menos lapidada do que a originalmente imaginada pelos músicos.
Esse comentário ajuda a explicar uma percepção comum entre os fãs mais atentos: enquanto Time to Be Free apresenta uma sonoridade extremamente polida e grandiosa, Mentalize soa mais direto, mais orgânico e menos preocupado com o acabamento minucioso de cada detalhe.
Curiosamente, para parte do público, essa característica acabou se tornando uma virtude. O álbum transmite uma energia mais espontânea e uma sensação de urgência que combina perfeitamente com sua proposta mais pesada.
Uma joia subestimada
Embora não tenha alcançado o mesmo impacto histórico de trabalhos como Holy Land, Ritual ou Angels Cry, Mentalize conquistou uma reputação crescente ao longo dos anos.
Muitos fãs que inicialmente o enxergavam apenas como uma continuação de Time to Be Free passaram a reconhecer sua personalidade própria. O álbum mostra um Andre Matos mais maduro, mais versátil vocalmente e disposto a experimentar sem perder sua essência.
Talvez por ter sido lançado em um período de profundas transformações na indústria musical, Mentalize nunca tenha recebido a mesma atenção dedicada aos grandes clássicos de sua carreira. Ainda assim, permanece como um dos trabalhos mais consistentes e interessantes de sua fase solo.
E seria também o último álbum de estúdio lançado antes de uma nova transformação em sua trajetória artística.
Symfonia: o supergrupo que reuniu lendas do metal melódico
Enquanto desenvolvia sua carreira solo, Andre Matos continuava sendo uma figura respeitada dentro da comunidade internacional do heavy metal.
Ao longo de quase duas décadas, seu trabalho no Angra e no Shaman havia conquistado admiradores em todo o mundo. Entre eles estavam alguns dos músicos mais importantes da cena europeia.
Foi desse reconhecimento que nasceu o Symfonia.
Anunciado em 2010, o projeto chamou atenção imediatamente por reunir nomes consagrados do metal melódico. Ao lado de Andre Matos estavam o guitarrista Timo Tolkki, fundador e principal compositor da fase clássica do Stratovarius, o baixista Jari Kainulainen, também ex-Stratovarius, o baterista Uli Kusch, conhecido por seu trabalho com Helloween e Masterplan, além do tecladista Mikko Härkin.
Para muitos fãs, parecia uma seleção dos sonhos.
Pela primeira vez, Andre Matos trabalharia em igualdade de condições com músicos que haviam ajudado a moldar o power metal europeu durante os anos 1990.
O encontro de duas escolas do metal melódico
O Symfonia representava algo raro.
De um lado estava Timo Tolkki, responsável por algumas das composições mais influentes da história do power metal europeu. Do outro, Andre Matos, um dos principais arquitetos do metal melódico sul-americano.
A união dessas duas visões musicais despertou enorme expectativa.
Enquanto Tolkki era conhecido por estruturas diretas e refrões grandiosos, Andre trazia sua formação erudita, sua preocupação com arranjos sofisticados e uma abordagem vocal extremamente emocional.
A combinação parecia natural.
In Paradisum
O resultado dessa colaboração chegou em 2011 com o lançamento de In Paradisum.
O álbum apresentou uma sonoridade fortemente ligada ao power metal melódico clássico, com grandes refrães, teclados em destaque e melodias épicas. Faixas como “Pilgrim Road”, “Fields of Avalon”, “Come By the Hills” e “Don’t Let Me Go” mostravam uma banda claramente inspirada pelos grandes discos do gênero lançados nos anos 1990.
Para os fãs de Andre Matos, o trabalho trouxe algo especial.
Depois de anos explorando diferentes estilos no Shaman e em sua carreira solo, o vocalista voltava a gravar um álbum totalmente voltado para o power metal melódico tradicional.
Mesmo após mais de vinte anos de carreira, Andre demonstrava plena capacidade de competir com qualquer vocalista da cena internacional.
Os desafios do projeto
Apesar do entusiasmo inicial, os problemas começaram a surgir rapidamente.
A distância geográfica entre os integrantes dificultava o funcionamento da banda. Os músicos viviam em países diferentes e possuíam compromissos paralelos com outros projetos.
Além disso, problemas de saúde afetaram alguns integrantes durante a preparação da turnê.
Timo Tolkki também enfrentava dificuldades pessoais e profissionais naquele período, o que acabou impactando diretamente a continuidade do grupo.
Pouco tempo após o lançamento de In Paradisum, ficou claro que o Symfonia dificilmente teria vida longa.
Uma despedida involuntária
Embora tenha existido por pouco tempo, o Symfonia ocupa um lugar importante na trajetória de Andre Matos.
O projeto mostrou que seu nome continuava sendo respeitado entre os principais artistas do metal mundial. Olhando em retrospecto, o Symfonia acabou se tornando um capítulo único de sua carreira: uma reunião improvável de talentos que produziu apenas um álbum, mas deixou aos fãs um registro de enorme valor histórico.
Sem que ninguém soubesse naquele momento, o próximo trabalho de Andre Matos seria também um dos mais importantes de sua vida.
Pouco depois do encerramento das atividades do Symfonia, ele voltaria sua atenção para um novo álbum solo. Um disco que reuniria toda a experiência acumulada desde os tempos de Viper, Angra, Shaman e carreira solo.
Esse álbum seria The Turn of the Lights. Mas, antes, houve uma volta ao passado.
O retorno ao Viper: quando Andre Matos redescobriu sua própria história
Ao longo de sua carreira, Andre Matos sempre demonstrou uma característica curiosa. Diferentemente de muitos artistas que vivem de revisitar seus maiores sucessos, ele costumava concentrar suas energias no futuro.
Mesmo após o enorme sucesso do Angra e do Shaman, raramente parecia interessado em transformar a nostalgia em um projeto artístico.
Isso começou a mudar no início da década de 2010.
Mais de vinte anos após sua saída do Viper, Andre voltou a dividir o palco com os músicos da formação clássica da banda. A reunião marcou o reencontro com os irmãos Yves e Pit Passarell, Felipe Machado e Cássio Audi, os mesmos companheiros com quem havia iniciado sua trajetória profissional ainda na adolescência.
Para os fãs, era uma oportunidade histórica.
Para Andre, era a chance de revisitar um período que havia sido fundamental para sua formação como músico.
Celebrando Theatre of Fate
A reunião teve como principal objetivo celebrar Theatre of Fate, álbum lançado originalmente em 1989 e considerado um dos marcos do heavy metal brasileiro.
Durante anos, fãs haviam pedido que Andre voltasse a cantar músicas como “Living for the Night”, “At Least a Chance” e “Moonlight”. Algumas delas já apareciam ocasionalmente em seus shows, mas agora seriam apresentadas dentro de seu contexto original.
O reencontro acabou gerando uma série de apresentações especiais que culminaram na gravação do DVD To Live Again, lançado em 2013.
O registro capturou algo que muitos admiradores acreditavam ser impossível poucos anos antes: a reunião da formação responsável pelo álbum que ajudou a transformar Andre Matos em uma referência internacional do metal melódico.
Uma nova relação com o passado
O sucesso dos shows produziu um efeito inesperado.
Ao revisitar o repertório do Viper, Andre percebeu que aquelas músicas continuavam vivas para uma geração inteira de fãs. Mais do que isso, ele começou a enxergar sua própria trajetória sob uma nova perspectiva.
Pela primeira vez, parecia confortável em assumir publicamente o papel de personagem histórico dentro do heavy metal brasileiro.
As apresentações mostraram que o público não queria apenas ouvir material novo. Havia um enorme interesse em celebrar os álbuns e momentos que ajudaram a construir sua carreira.
Esse aprendizado teria consequências importantes nos anos seguintes.
O nascimento das turnês comemorativas
A experiência adquirida com a reunião do Viper ajudou a moldar uma ideia que se tornaria uma das marcas da fase final da carreira de Andre Matos.
Em vez de simplesmente incluir clássicos espalhados pelo repertório, ele passou a desenvolver apresentações focadas em álbuns específicos e em períodos históricos de sua trajetória.
O conceito era relativamente incomum no Brasil naquele momento, mas já fazia sucesso entre grandes bandas internacionais.
Andre percebeu que seus discos haviam se transformado em obras com identidade própria, capazes de sustentar shows inteiros dedicados a uma única fase de sua carreira.
Angels Cry 20th Anniversary Tour
Em 2013, o álbum Angels Cry completou vinte anos.
Lançado em 1993, o disco havia sido responsável por apresentar o Angra ao mundo e estabelecer Andre Matos como um dos principais vocalistas do metal melódico internacional. Para muitos fãs, tratava-se de um dos trabalhos mais importantes da história do heavy metal brasileiro.
A turnê comemorativa permitiu que Andre revisitasse aquele repertório de forma muito mais profunda do que acontecia em apresentações convencionais.
Em vez de tocar apenas alguns sucessos isolados, ele passou a executar grande parte do álbum, incluindo músicas que raramente apareciam nos palcos. Faixas como “Time”, “Never Understand”, “Evil Warning”, “Carry On” e “Angels Cry” voltaram a ocupar posição central nos shows.
O projeto também contou com participações especiais de músicos ligados à história do disco, transformando as apresentações em verdadeiras celebrações da primeira fase do Angra.
Para os fãs mais jovens, era uma oportunidade única de ouvir aquele repertório interpretado novamente por sua voz original. Para os admiradores de longa data, era a chance de reviver um dos períodos mais importantes da história do metal nacional.
Holy Land: celebrando uma obra-prima
Se Angels Cry foi o disco que abriu portas para o Angra, Holy Land é frequentemente apontado como sua maior realização artística.
Ao longo dos anos, o álbum conquistou status de clássico não apenas entre os fãs brasileiros, mas também entre admiradores do metal melódico em diversas partes do mundo.
Naturalmente, Andre decidiu levar essa celebração aos palcos.
A turnê dedicada a Holy Land possuía um significado especial. Diferentemente de Angels Cry, que representava o nascimento de uma banda, Holy Land simbolizava o momento em que Andre Matos atingiu um novo patamar como compositor, arranjador e idealizador artístico.
Executar músicas como “Nothing to Say”, “Make Believe”, “Carolina IV”, “Z.I.T.O.” e a própria “Holy Land” exigia um enorme esforço de produção. Muitas dessas composições possuem estruturas complexas, mudanças constantes de dinâmica e arranjos que combinam elementos sinfônicos, progressivos e brasileiros.
Ainda assim, os shows foram recebidos com entusiasmo.
Para muitos fãs, era a primeira oportunidade de assistir a uma celebração dedicada a um álbum que ajudou a redefinir os limites do heavy metal produzido no Brasil.
Mais do que uma simples turnê nostálgica, aquelas apresentações reforçavam a importância histórica de uma obra que continuava influenciando músicos décadas após seu lançamento.
The Turn of the Lights (2012): a maturidade artística de Andre Matos
Quando The Turn of the Lights foi lançado em 2012, Andre Matos já não precisava provar mais nada.
Aquela altura, seu currículo incluía passagens por algumas das bandas mais importantes da história do heavy metal brasileiro, reconhecimento internacional e uma carreira construída ao longo de quase três décadas. Ainda assim, o álbum mostrou um artista que continuava buscando novos desafios criativos.
Mais do que uma simples continuação de Time to Be Free e Mentalize, o disco representava uma síntese de tudo o que Andre havia aprendido desde os tempos de Viper.
Era um trabalho mais maduro, mais sofisticado e, ao mesmo tempo, surpreendentemente equilibrado.
Um álbum construído sem pressa
Diferentemente do que havia acontecido em alguns momentos anteriores de sua carreira, especialmente durante a produção de Mentalize, Andre e sua banda tiveram mais tempo para desenvolver as composições e os arranjos.
O resultado foi um disco extremamente detalhado.
As músicas apresentam múltiplas camadas de instrumentos, arranjos cuidadosamente construídos e uma integração muito natural entre elementos sinfônicos, progressivos e metal tradicional. Não existe a sensação de urgência ou de trabalho apressado percebida por alguns fãs no álbum anterior.
Cada faixa parece ter sido desenvolvida até atingir exatamente o resultado imaginado pelo compositor.
O retorno do grande contador de histórias
Uma das características mais marcantes de The Turn of the Lights é o foco na narrativa.
Ao longo da carreira, Andre sempre demonstrou interesse por temas filosóficos, históricos e existenciais. Nesse álbum, essa característica aparece de forma particularmente evidente.
As letras abordam transformação, autoconhecimento, passagem do tempo, espiritualidade e a relação entre luz e escuridão como metáforas para a experiência humana.
O próprio título do álbum sugere múltiplas interpretações.
Enquanto alguns fãs enxergam uma referência ao encerramento de ciclos, outros veem uma metáfora para mudanças de perspectiva e renovação pessoal.
Essa ambiguidade combina perfeitamente com a fase que Andre vivia naquele momento.
Faixas que sintetizam uma carreira
Músicas como “Liberty”, “Course of Life”, “When the Sun Cried Out” e a faixa-título mostram um artista completamente confortável com sua identidade musical.
Não existe qualquer tentativa de seguir tendências ou se adaptar ao mercado.
Andre simplesmente faz aquilo que sempre soube fazer melhor: combinar melodias memoráveis, arranjos sofisticados e emoção genuína.
Em diversos momentos, o álbum parece dialogar com fases anteriores de sua carreira.
Há passagens que lembram a grandiosidade de Holy Land, outras que remetem à energia de Ritual e algumas que recuperam a agressividade desenvolvida durante o período de Reason e Mentalize.
Mas nada soa como repetição.
Tudo é apresentado sob uma nova perspectiva.
Talvez seu melhor trabalho como compositor
Curiosamente, embora discos como Angels Cry, Holy Land e Ritual sejam mais famosos, muitos músicos e fãs de longa data consideram The Turn of the Lights uma das maiores realizações artísticas de Andre Matos.
Isso acontece porque o álbum apresenta um compositor completamente maduro.
O jovem prodígio que impressionava pela técnica vocal no Viper havia se transformado em um músico capaz de controlar todos os aspectos de uma obra: composição, arranjos, conceito, interpretação e direção artística.
Poucos artistas conseguem alcançar esse nível de domínio criativo.
O último álbum de estúdio
Sem que ninguém soubesse, The Turn of the Lights se tornaria o último álbum de estúdio lançado por Andre Matos.
Nos anos seguintes, sua atenção se dividiria entre apresentações especiais, participações em projetos, turnês comemorativas e reencontros históricos com diferentes capítulos de sua carreira.
O disco acabou assumindo um significado especial após sua morte.
Hoje, muitos fãs o enxergam como uma espécie de retrato definitivo de Andre Matos como artista: sofisticado, ambicioso, emotivo e completamente fiel à própria visão musical.
Se Angels Cry apresentou o mundo ao talento de Andre Matos, Holy Land revelou sua genialidade criativa e Ritual mostrou sua capacidade de recomeçar, The Turn of the Lights representou algo diferente.
Foi o trabalho de um músico que finalmente havia alcançado sua plena maturidade artística.
Ritual: o reencontro com o Shaman
Talvez nenhuma celebração tenha sido tão emocional quanto a reunião da formação clássica do Shaman.
Em 2018, Andre Matos voltou a dividir o palco com Luis Mariutti, Hugo Mariutti e Ricardo Confessori para comemorar os quinze anos de Ritual.
O álbum havia sido lançado em 2002 e representava muito mais do que a estreia de uma nova banda. Para Andre, ele simbolizava a reconstrução após a saída do Angra.
Foi o disco que provou que sua carreira poderia seguir em frente. Foi o álbum que apresentou sucessos como “Fairy Tale”, “For Tomorrow”, “Pride” e “Over Your Head”. E foi também um dos trabalhos mais populares de toda a sua trajetória.
A recepção dos fãs mostrou que o carinho pelo repertório permanecia intacto.
Em diversas cidades, os ingressos se esgotaram rapidamente. O público cantava cada música do início ao fim, transformando os shows em verdadeiras celebrações coletivas.
Para muitos admiradores, havia também um sentimento de reencontro. Depois de anos de separação, ver Andre novamente ao lado dos músicos que participaram da criação de Ritual tinha um significado especial.
As participações especiais: o reconhecimento internacional de Andre Matos
Ao longo de sua carreira, Andre Matos construiu uma reputação que ultrapassou as fronteiras das bandas pelas quais passou.
Seus trabalhos com Viper, Angra, Shaman e carreira solo já haviam consolidado seu nome entre os grandes vocalistas do heavy metal mundial. Mas foi através de inúmeras participações especiais que se tornou possível medir a dimensão real de seu prestígio dentro da comunidade internacional do metal.
Poucos músicos brasileiros foram convidados para colaborar com tantos artistas relevantes do gênero.
E menos ainda conseguiram deixar uma marca tão forte em projetos dos quais participaram por apenas algumas músicas.
Tobias Sammet e o Avantasia
Entre todas as colaborações internacionais de Andre Matos, nenhuma foi tão importante quanto sua relação com Tobias Sammet.
Fundador do Edguy e criador do Avantasia, Tobias sempre citou Andre como uma de suas principais influências. Durante os anos 1990, enquanto construía sua carreira na Alemanha, acompanhava atentamente o sucesso do Angra e admirava especialmente a combinação de técnica, emoção e sofisticação que caracterizava os vocais de Andre.
Quando decidiu criar o Avantasia, um projeto que reuniria alguns dos maiores nomes do metal mundial, o convite para Andre foi quase natural.
A parceria começou em The Metal Opera Part I (2001), onde Andre cantou músicas como “Inside” e “Sign of the Cross” (esta também imortalizada no DVD RituAlive). Embora sua participação tenha sido relativamente breve, ela marcou o início de uma relação artística que se estenderia por muitos anos.
Um convidado recorrente
Diferentemente de muitos músicos que passaram pelo Avantasia em participações isoladas, Andre se tornou uma presença recorrente no projeto.
Ao longo dos anos, voltou a colaborar em diversos lançamentos, incluindo The Metal Opera Part II (2002), The Scarecrow (2008), The Wicked Symphony (2010) e Angel of Babylon (2010).
Sua voz podia ser ouvida ao lado de artistas como:
- Michael Kiske
- Bob Catley
- Jorn Lande
- Klaus Meine
- Alice Cooper
- Eric Singer
- Roy Khan
- Russell Allen
Para um músico brasileiro, dividir espaço com esse grupo de artistas representava um reconhecimento extraordinário.
Mais do que um convidado, Andre era tratado como um dos vocalistas de elite do projeto.
The Scarecrow e o reencontro com o grande público europeu
Um dos momentos mais marcantes dessa parceria aconteceu em The Scarecrow.
O álbum marcou uma nova fase do Avantasia e ajudou a transformar o projeto em um dos maiores nomes do metal europeu do século XXI.
A participação de Andre foi especialmente importante porque o colocou novamente diante de um público internacional gigantesco, muitos anos após o auge comercial do Angra.
Ao lado de Tobias Sammet, ele participou de apresentações em grandes festivais europeus, mostrando que sua capacidade vocal permanecia impressionante mesmo após décadas de carreira.
O respeito de Tobias Sammet
Em diversas entrevistas, Tobias Sammet demonstrou profunda admiração por Andre Matos.
O alemão frequentemente destacava sua musicalidade, seu profissionalismo e sua capacidade de interpretar personagens complexos dentro das óperas metálicas do Avantasia.
Após a morte de Andre, em 2019, Tobias publicou uma emocionante homenagem nas redes sociais, lembrando não apenas o artista, mas também o amigo que conheceu ao longo de quase duas décadas de colaboração.
Para muitos fãs, aquelas palavras mostraram algo que já era evidente nos bastidores da cena: Andre Matos não era apenas respeitado por sua técnica vocal, mas também por sua postura humana e artística.
Outras colaborações marcantes
Além do Avantasia, Andre participou de inúmeros projetos ao longo da carreira.
Sua voz apareceu em trabalhos de bandas e músicos de diferentes países, incluindo colaborações com:
- Aina
- Revolution Renaissance
- Virgo
- Epica
- SoulSpell
- Korzus
- Thalion
- Dr. Sin
- Eyes of Shiva
- Viper (na faixa “Love is All”, do All My Life, e em diferentes momentos de reunião)
Essa diversidade revela uma característica importante de sua trajetória.
Embora seja frequentemente associado ao power metal, Andre nunca se limitou a um único estilo. Ao longo dos anos, transitou entre hard rock, metal progressivo, metal sinfônico, heavy metal tradicional e até projetos com forte influência erudita.
Um artista admirado por seus pares
Talvez o aspecto mais revelador dessas participações seja a frequência com que outros músicos buscavam trabalhar com Andre Matos.
Ao longo da carreira, ele se transformou em uma referência não apenas para os fãs, mas também para artistas que cresceram ouvindo seus discos.
Muitos dos vocalistas que surgiram nas décadas de 1990 e 2000 citam Andre entre suas principais influências.
Isso ajuda a explicar por que seu nome aparece tantas vezes em projetos especiais, álbuns colaborativos e supergrupos internacionais.
Em uma indústria conhecida por egos inflados e rivalidades constantes, Andre conquistou algo raro: respeito quase unânime.
Quando era convidado para participar de um álbum, não estava ali apenas por sua fama.
Estava ali porque os próprios músicos sabiam que sua presença elevava o nível artístico do projeto.
Essa reputação o acompanharia até os últimos anos de vida, consolidando seu lugar como um dos artistas brasileiros mais respeitados da história do heavy metal mundial.
8 de junho de 2019: o dia em que o metal perdeu uma de suas maiores vozes
Na primeira semana de junho de 2019, Andre Matos vivia um momento particularmente especial de sua carreira.
Poucos dias antes, havia dividido o palco com Tobias Sammet e o Avantasia em apresentações realizadas no Brasil. Também seguia envolvido com a turnê de reunião do Shaman, projeto que havia recolocado diante dos fãs a formação responsável por um dos períodos mais importantes de sua trajetória.
Nada indicava que aqueles seriam seus últimos dias.
Na manhã de 8 de junho de 2019, o universo do heavy metal foi surpreendido pela notícia de sua morte. Andre Matos faleceu aos 47 anos de idade, vítima de um infarto agudo do miocárdio. A informação foi divulgada inicialmente por integrantes do Shaman e posteriormente confirmada por familiares e representantes do artista.
O impacto foi imediato.
Em poucos minutos, redes sociais, sites especializados e veículos de imprensa de diversos países passaram a repercutir a perda daquele que era considerado uma das maiores vozes da história do metal sul-americano.
A última apresentação completa de Andre Matos foi com o Shaman, em 3 de junho de 2019. Nesse mesmo festival, Matos subiu ao palco com o Avantasia e cantou “Reach Out For The Light”, sendo essa a última vez que o público ouviu sua poderosa voz ao vivo.
https://www.youtube.com/watch?v=VO9Kcx58h8k
Um artista que vivia para a música
Entre amigos e músicos próximos, era conhecida a intensidade com que Andre se dedicava ao trabalho.
Compositor compulsivo, leitor voraz e apaixonado por música, ele frequentemente passava madrugadas trabalhando em arranjos, estudando partituras, respondendo mensagens ou planejando novos projetos. Seu ritmo de vida era tão peculiar que amigos costumavam brincar dizendo que ele vivia “no fuso horário do Japão”, uma referência bem-humorada à sua rotina noturna e à forte ligação que mantinha com o país desde os tempos de Viper.
A observação não era exagerada.
Desde o início dos anos 1990, o Japão ocupava um lugar especial em sua carreira. Foi lá que Angra, Shaman e seus projetos posteriores encontraram alguns de seus públicos mais fiéis e apaixonados.
A comoção internacional
A repercussão da morte de Andre Matos ultrapassou rapidamente as fronteiras do Brasil.
Mensagens de pesar vieram de artistas, produtores e músicos de diversas partes do mundo. Tobias Sammet, Michael Kiske, Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt e inúmeros outros nomes ligados ao heavy metal prestaram homenagens públicas ao cantor.
As manifestações não se limitavam ao reconhecimento de sua capacidade técnica.
Grande parte dos depoimentos destacava sua inteligência musical, sua generosidade e sua importância para o desenvolvimento do metal melódico mundial.
Ao longo de décadas, Andre havia construído algo raro: respeito praticamente unânime entre colegas de profissão.
Uma despedida discreta
De acordo com um desejo manifestado pelo próprio artista ainda em vida, não foi realizado um velório público.
Seu corpo foi cremado de forma reservada, longe dos holofotes que sempre procurou evitar fora dos palcos.
A decisão foi coerente com a personalidade de Andre.
Embora fosse uma figura extremamente admirada pelos fãs, sempre manteve uma relação discreta com a fama. Preferia ser reconhecido pelo trabalho e pela música do que pela exposição pessoal.
O silêncio após a última nota
A morte de Andre Matos encerrou uma carreira iniciada ainda na adolescência, quando subiu ao palco pela primeira vez com o Viper em 1985.
Ao longo de 34 anos de trajetória, ele participou da criação de alguns dos álbuns mais importantes da história do heavy metal brasileiro, ajudou a projetar músicos nacionais para o mercado internacional e inspirou gerações inteiras de artistas.
Mas talvez seu maior legado não esteja apenas nos discos que gravou.
Ele ajudou a provar que um músico brasileiro poderia competir em igualdade de condições com qualquer artista do mundo, sem abrir mão de sua identidade, de sua cultura e de sua visão artística.
Quando a notícia de sua morte se espalhou naquele sábado de junho, milhares de fãs sentiram que uma parte importante da história do metal havia chegado ao fim.
Com o passar dos anos, porém, tornou-se evidente que a história não havia terminado.
Ela apenas havia se transformado em legado. Em sua homenagem, o 8 de junho agora é o Dia Municipal do Heavy Metal, de acordo com a Lei Ordinária Nº 17.383/2020.
Andre Matos é um pilar do heavy metal nacional e do power metal mundial. A partir do sucesso que conseguiu com o Viper, levou seu talento para várias bandas e é responsável, involuntariamente, pela criação do que os fãs chamam de Angraverso, a grande rede de bandas ligadas ao Angra.
Hoje, diversas bandas carregam o legado do Andre, como o Shamangra, o Viper e o próprio Angra.