Ao longo de mais de quatro décadas no Metallica, Kirk Hammett acompanhou de perto as transformações da indústria musical. Da era em que músicos aprendiam ouvindo discos e rebobinando fitas até o cenário atual, dominado por plataformas digitais e inteligência artificial, o guitarrista acredita que muita coisa mudou — e nem todas para melhor.
Em entrevista ao The Irish Times, repercutida pela Louder, Hammett lamentou o que considera uma perda de qualidade na composição musical contemporânea. Para ele, a facilidade de acesso à informação técnica não tem sido acompanhada por uma evolução na criatividade das canções.
“A composição e a música pop estão uma porcaria”
Durante a conversa, Kirk explicou que sente falta da época em que aprender um instrumento exigia paciência, tentativa e erro e muita dedicação.
Segundo o guitarrista, esse processo fazia parte da formação da identidade artística de cada músico.
“Lamento um pouco aqueles tempos em que as pessoas realmente precisavam lutar para aprender, porque é nessa luta que você desenvolve determinação, inspiração e acaba encontrando seu próprio som e estilo.”
Embora reconheça que a internet democratizou o acesso ao conhecimento musical, Hammett afirmou que espera ver essa nova geração transformar toda essa técnica em músicas mais marcantes.
Foi nesse contexto que fez sua declaração mais polêmica.
“Espero que isso leve a uma música pop melhor e a composições melhores. Porque, neste momento, a composição e a música pop estão uma porcaria. Vou dizer de novo: uma porcaria.”
Apesar do tom crítico, o guitarrista deixou claro que sua preocupação não é com um gênero específico, mas com o nível das composições produzidas atualmente.
A tecnologia facilita, mas também muda o processo criativo
Hammett observou que hoje qualquer músico pode aprender técnicas extremamente avançadas graças aos vídeos disponíveis na internet.
Na visão dele, isso elevou muito o nível técnico dos instrumentistas, mas também levanta uma questão importante: será que tanta facilidade incentiva a criação de uma identidade própria?
Para o guitarrista, a evolução técnica só fará sentido se resultar em músicas capazes de atravessar gerações, algo que ele acredita estar cada vez mais raro na música popular contemporânea.
O primeiro show que Kirk Hammett viu na vida
A entrevista também trouxe uma lembrança bastante pessoal.
Questionado sobre o primeiro grande show que assistiu, Kirk respondeu sem hesitar: Thin Lizzy.
Ele tinha apenas 14 anos quando viu a banda se apresentar em San Francisco.
Segundo Hammett, a experiência foi transformadora.
“Eu não conseguia acreditar que aquela era realmente a banda no palco. Eram os mesmos caras que eu via nas capas dos discos. Para mim, eles eram como super-heróis dos quadrinhos ganhando vida.”
O guitarrista fez questão de citar a formação que viu naquela noite:
- Phil Lynott
- Brian Robertson
- Scott Gorham
- Brian Downey
Hammett definiu o espetáculo com uma palavra: “fantástico”.
A influência do Thin Lizzy no Metallica
A admiração de Kirk Hammett pelo Thin Lizzy nunca foi segredo.
Ao longo da carreira, o Metallica já homenageou diversas vezes a banda irlandesa, incluindo versões ao vivo de músicas como “Whiskey in the Jar”, que se tornou um dos maiores sucessos da fase recente do grupo.
Em junho de 2026, durante a passagem da turnê 72 Seasons por Dublin, o Metallica também executou “Black Rose”, um dos clássicos do Thin Lizzy e uma das músicas favoritas de Hammett. O guitarrista destacou, inclusive, que a faixa foi originalmente gravada com sua famosa guitarra “Greeny”, instrumento histórico que hoje faz parte de sua coleção.
Uma reflexão sobre o futuro da música
As declarações de Kirk Hammett certamente dividem opiniões. Afinal, a música pop atual reúne artistas de enorme sucesso comercial e de diferentes propostas criativas.
Ainda assim, o guitarrista deixa claro que sua crítica não é à popularidade do gênero, mas ao que considera uma queda no padrão de composição. Para ele, a facilidade tecnológica oferece oportunidades inéditas aos novos músicos, mas também traz o desafio de criar obras realmente originais e duradouras.
Vindo de um artista que ajudou a escrever clássicos como “Master of Puppets”, “One”, “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters”, a reflexão reforça um debate antigo: a técnica nunca substitui uma boa canção. E, na visão de Hammett, é justamente a qualidade da composição que continuará definindo quais músicas sobreviverão ao teste do tempo.