Poucas bandas brasileiras conseguiram mudar a percepção internacional sobre o país como o Sepultura. Nascido em Belo Horizonte, em 1984, o grupo começou em um cenário em que o Brasil praticamente não existia no mapa da indústria internacional do heavy metal. Quatro décadas depois, o Sepultura havia vendido milhões de discos, tocado em dezenas de países e se tornado uma referência para algumas das maiores bandas do metal mundial. A própria banda resume sua trajetória dizendo que ajudou a colocar o metal brasileiro no mapa mundial.

Mas essa história não aconteceu de uma hora para outra. O caminho que levou Max Cavalera, Igor Cavalera, Paulo Jr. e Andreas Kisser dos clubes de Belo Horizonte aos maiores palcos internacionais começou com uma combinação de ambição, circulação de fitas demo e uma disposição incomum para desafiar as expectativas sobre o que uma banda brasileira poderia fazer.

De Belo Horizonte para o mundo

O Sepultura surgiu em 1984, quando Max e Igor Cavalera ainda eram adolescentes. A banda fazia parte de uma cena brasileira que começava a desenvolver sua própria linguagem de heavy metal, especialmente em Belo Horizonte, onde o acesso a discos estrangeiros era limitado e o intercâmbio com a Europa e os Estados Unidos dependia muito de fitas, cartas e contatos pessoais.

Os primeiros trabalhos, Morbid Visions e Schizophrenia, foram lançados pela gravadora brasileira Cogumelo Records. Mesmo com produção e distribuição extremamente limitadas pelos padrões internacionais, as músicas começaram a circular no underground estrangeiro. Schizophrenia, de 1987, chamou particularmente a atenção de pessoas ligadas ao mercado internacional.

Foi nesse momento que apareceu um personagem fundamental nessa história: Monte Conner, então responsável pela área de A&R da Roadrunner Records.

A Roadrunner era uma gravadora ainda pequena, mas especializada em metal extremo. Conner percebeu que havia algo diferente naquela banda brasileira. O próprio Max contou posteriormente que levou uma cópia de Schizophrenia para Nova York e tentou apresentar o grupo a gravadoras. Pouco tempo depois, recebeu a notícia que mudaria a trajetória do Sepultura: a Roadrunner queria contratá-los.

A assinatura foi muito mais do que um contrato fonográfico. Ela deu ao Sepultura acesso a uma estrutura internacional que simplesmente não existia no Brasil naquele momento.

A Roadrunner abriu a porta

O primeiro grande resultado dessa mudança foi Beneath the Remains, lançado em 1989. Para gravar o álbum, o Sepultura trabalhou com Scott Burns, produtor que se tornaria uma das figuras fundamentais do death metal americano.

A diferença de estrutura era enorme. A banda que havia começado em Belo Horizonte agora tinha acesso a estúdios, produtores e distribuição internacional.

Beneath the Remains transformou o Sepultura em uma das grandes revelações do metal extremo. O disco não apenas circulou internacionalmente: estabeleceu a banda como uma força capaz de competir artisticamente com grupos europeus e americanos. A Roadrunner havia apostado em uma banda brasileira e descoberto que sua origem não era uma limitação.

O passo seguinte foi Arise, de 1991. O álbum consolidou a reputação internacional do grupo e mostrou que o Sepultura não era simplesmente uma curiosidade exótica vinda de um país distante. Era uma banda de metal de primeira linha.

Essa distinção é importante. O Sepultura não conquistou espaço internacional por ser “uma banda brasileira de metal”. Conquistou porque suas músicas eram capazes de competir no mesmo território das bandas que dominavam a cena mundial.

A chegada a Donington

Um dos símbolos mais fortes dessa transformação foi Donington Park, na Inglaterra.

O festival Monsters of Rock era um dos principais acontecimentos do calendário mundial do heavy metal. Desde sua criação, em 1980, havia recebido nomes como AC/DC, Judas Priest, Iron Maiden, Metallica, Ozzy Osbourne e Black Sabbath.

Em 1994, o Sepultura chegou ao palco principal do festival ao lado de nomes como Aerosmith, Extreme e Pantera. Não era mais uma banda brasileira tentando entrar no circuito internacional. Era uma atração de um dos maiores festivais de metal do planeta.

Dois anos depois, em 1996, o grupo retornaria a Donington para uma apresentação ainda mais simbólica. O Sepultura dividiu o palco principal com Kiss, Ozzy Osbourne, Biohazard, Fear Factory, Korn e Type O Negative, entre outros.

A presença em Donington sintetizava uma mudança histórica: uma banda que havia começado em Belo Horizonte agora fazia parte da programação dos maiores festivais europeus.

E isso acontecia antes mesmo do lançamento de Roots consolidar definitivamente sua popularidade.

Chaos A.D.: o momento em que o Sepultura deixou de ser apenas thrash

Se Beneath the Remains e Arise colocaram o Sepultura no mapa, Chaos A.D. mostrou que a banda pretendia mudar o próprio mapa.

Lançado em 1993, o álbum manteve a agressividade do thrash, mas acrescentou groove, percussão, influências brasileiras e uma abordagem muito mais pesada e cadenciada.

“Refuse/Resist”, “Territory”, “Slave New World” e “Kaiowas” apontavam para uma banda que não queria simplesmente repetir o que já havia feito.

Para Monte Conner, da Roadrunner, Chaos A.D. foi justamente o disco em que o Sepultura transcendeu o death/thrash e se transformou em uma banda de metal com uma identidade muito mais ampla. O álbum chegou ao 11º lugar no Reino Unido e foi o primeiro lançamento da Roadrunner a entrar no Top 40 americano, alcançando a 32ª posição.

O Sepultura estava deixando de ser apenas uma banda brasileira bem-sucedida no exterior. Começava a influenciar a própria direção que o metal internacional tomaria.

Roots foi a virada definitiva

Então veio Roots.

Lançado em março de 1996, o sexto álbum do Sepultura levou as experiências de Chaos A.D. a um nível completamente diferente. Em vez de esconder suas origens brasileiras para se aproximar do mercado americano ou europeu, a banda fez exatamente o contrário: colocou o Brasil no centro de sua música.

A gravação envolveu elementos da música indígena brasileira, percussão e participação dos Xavante, além de músicos como Carlinhos Brown. A faixa “Ratamahatta” incorporou elementos diretamente associados à cultura brasileira, enquanto “Roots Bloody Roots” transformou a ideia de identidade e pertencimento em um dos maiores hinos da carreira da banda.

O álbum também contou com participações de nomes que representavam uma nova geração do metal americano, como Jonathan Davis, do Korn, além de Mike Patton, do Faith No More, e DJ Lethal.

Essa combinação foi decisiva. O Sepultura não estava mais simplesmente exportando o thrash metal brasileiro. Estava criando uma linguagem própria que conectava metal extremo, groove, hardcore, música industrial, elementos tribais e ritmos brasileiros.

O resultado foi um disco que ultrapassou o público tradicional do metal.

Roots ajudou a moldar o nu metal

O impacto de Roots precisa ser entendido dentro do contexto dos anos 1990.

Naquele momento, bandas como Korn estavam ajudando a criar uma nova linguagem para o metal americano. Guitarras graves, riffs sincopados, grooves pesados e uma relação diferente entre voz e instrumento estavam começando a formar aquilo que posteriormente seria chamado de nu metal.

O interessante é que a relação entre Sepultura e Korn foi de mão dupla.

O Korn influenciou parte da sonoridade de Roots, e Jonathan Davis participou de “Lookaway”. Ao mesmo tempo, o Sepultura já havia desenvolvido em Chaos A.D. uma abordagem baseada em groove e peso que ajudaria a abrir espaço para essa nova geração.

Anos depois, Davis reconheceu a importância do Sepultura para o próprio Korn e para bandas que vieram depois. O impacto foi especialmente grande sobre grupos como Slipknot, que transformariam aquela combinação de agressividade, ritmo e espetáculo em uma nova linguagem de metal.

É por isso que Roots é frequentemente tratado como um dos discos fundamentais para entender a transição entre o metal dos anos 1980 e o metal alternativo que dominaria a segunda metade dos anos 1990.

Max Cavalera resumiria o impacto de maneira ainda mais direta anos depois: havia metal antes de Roots e metal depois de Roots.

A influência atravessou gerações

O legado internacional do Sepultura não ficou restrito ao nu metal.

Bandas de diferentes gerações e países reconheceram a influência do grupo. Machine Head, Pantera, Slipknot, Korn, Hatebreed, Gojira, Krisiun, Alien Weaponry, Code Orange, Power Trip, Trivium e Children of Bodom, entre muitos outros, aparecem associados à influência do Sepultura.

Isso aconteceu porque o grupo resolveu um problema que muitas bandas enfrentam: como incorporar elementos de sua própria cultura sem transformar isso em uma caricatura.

O Sepultura não colocou “elementos brasileiros” em suas músicas apenas para parecer diferente. A partir de Chaos A.D. e, principalmente, Roots, esses elementos passaram a fazer parte da própria identidade musical da banda.

Essa decisão teve consequências internacionais. Depois de Roots, tornou-se muito mais fácil imaginar que uma banda poderia incorporar ritmos, instrumentos e tradições de seu próprio país ao metal sem precisar seguir uma cartilha criada nos Estados Unidos ou na Europa.

Nesse sentido, o impacto do Sepultura foi também cultural.

O Brasil deixou de ser apenas um mercado

Existe uma diferença enorme entre ser um país que consome metal internacional e ser um país que exporta metal.

Durante muito tempo, o Brasil foi principalmente um enorme mercado para bandas estrangeiras. O Sepultura ajudou a inverter essa lógica.

A banda mostrou que era possível sair de Belo Horizonte, assinar com uma gravadora europeia, excursionar pelos Estados Unidos, tocar em Donington, aparecer nas principais revistas especializadas e influenciar músicos estrangeiros.

E isso teve efeito sobre toda uma geração brasileira.

Bandas como Angra, Krisiun, Ratos de Porão, Korzus e tantas outras encontraram um cenário internacional mais receptivo depois que o Sepultura provou que uma banda brasileira podia chegar ao topo sem abandonar sua identidade.

O próprio Sepultura reconhece que esteve ao lado de nomes como Metallica, Slayer e Black Sabbath e que acumulou décadas de apresentações internacionais. A banda afirma ter visitado 80 países ao longo de sua trajetória.

O verdadeiro legado do Sepultura

A importância do Sepultura para o metal mundial não está apenas no número de discos vendidos ou na quantidade de países visitados.

Está na mudança de perspectiva.

Quando quatro jovens de Belo Horizonte começaram a tocar metal em 1984, era difícil imaginar que uma banda brasileira poderia chegar aos maiores palcos do gênero. Quando Schizophrenia chamou a atenção da Roadrunner, a porta começou a se abrir. Beneath the Remains e Arise provaram que o grupo poderia competir internacionalmente. Chaos A.D. mostrou que era possível reinventar sua linguagem. E Roots transformou a identidade brasileira em uma força artística internacional.

O resultado foi muito maior do que o sucesso de uma única banda.

O Sepultura ajudou a convencer o mundo de que o metal não precisava ter sotaque americano ou europeu para ser universal.

A banda nasceu em Belo Horizonte, mas sua música atravessou fronteiras porque encontrou justamente naquilo que a tornava diferente sua maior força. Em vez de tentar esconder o Brasil para conquistar o mundo, o Sepultura fez o contrário: levou o Brasil para dentro do metal mundial.

E talvez essa seja a maior razão pela qual, décadas depois, ainda seja impossível contar a história do heavy metal internacional sem mencionar uma banda que começou em Minas Gerais.

O fim do Sepultura

Depois de quatro décadas de história, o Sepultura anunciou em 2023 que encerraria suas atividades. A banda realizou sua turnê de despedida, Celebrating Life Through Death, ao longo de 2024 e 2025, encerrando oficialmente a trajetória nos palcos em 8 de março de 2026, em São Paulo.

A formação que chegou ao fim, com Derrick Green, Andreas Kisser, Paulo Jr. e Greyson Nekrutman, decidiu encerrar o ciclo no auge, segundo os próprios integrantes. A despedida, porém, não apaga o legado construído desde Belo Horizonte: o Sepultura deixa uma marca definitiva no metal mundial e permanece como a banda brasileira de maior projeção internacional na história do gênero.