Se você acompanha o hard rock e o metal contemporâneo, é bem provável que o nome Dino Jelusick tenha aparecido em algum momento. O vocalista croata construiu uma carreira pouco comum para alguém de sua geração: começou ainda criança, venceu o primeiro Junior Eurovision Song Contest, migrou para o hard rock e o metal, fundou o Animal Drive, passou pelo Trans-Siberian Orchestra, trabalhou com nomes como George Lynch, Joel Hoekstra e Mike Portnoy e acabou sendo convidado por David Coverdale para integrar o Whitesnake.
Hoje, Jelusick é também o líder do projeto que leva seu sobrenome, além de integrar o Whom Gods Destroy, supergrupo de metal progressivo formado por Derek Sherinian, Ron “Bumblefoot” Thal, Yas Nomura e Bruno Valverde.
Mas a história de Dino é interessante justamente porque o Whitesnake não foi o ponto de partida. Na realidade, quando David Coverdale o chamou, Jelusick já vinha construindo há anos uma reputação entre músicos profissionais.
Dino Jelusick começou muito cedo
Nascido em 4 de junho de 1992, em Požega, na Croácia, Dino Jelusić entrou em contato com a música praticamente desde o nascimento. Seus pais também eram músicos, e ele começou a cantar aos três anos e a se apresentar publicamente aos cinco.
Sua primeira grande projeção aconteceu ainda na infância. Em 2003, aos 11 anos, Dino venceu a primeira edição do Junior Eurovision Song Contest, realizada na Dinamarca, interpretando sua própria música, “Ti si moja prva ljubav”. Depois disso, lançou o álbum No. 1 e chegou a fazer apresentações internacionais na Europa, Estados Unidos e Austrália.
Só que aquele garoto que havia conquistado o público europeu tinha outros planos musicais. Conforme cresceu, suas referências passaram a incluir nomes como King’s X, Slash, Dream Theater, Toto e, principalmente, Whitesnake. A música foi ficando mais pesada e Dino começou a direcionar sua carreira para o hard rock e o metal.
Animal Drive foi o primeiro grande passo no rock
Em 2012, Jelusick fundou o Animal Drive, banda que se tornou seu principal projeto durante boa parte da década seguinte. A formação definitiva começou a tomar forma em 2015 e o grupo chamou a atenção pelo hard rock pesado, com forte influência do Whitesnake.
A conexão com Jeff Scott Soto foi importante nesse período. O vocalista, que também participava do Trans-Siberian Orchestra, ajudou a apresentar o trabalho do Animal Drive à Frontiers Records. A gravadora acabou assinando com a banda, que lançou Bite! em 2018.
Um bom ponto de partida para conhecer essa fase é a versão de “Monkey Business”, do Skid Row, registrada pelo Animal Drive no EP Back to the Roots.
Outro destaque é “Judgement Day”, justamente uma música do Whitesnake que mostra como a influência de Coverdale já estava profundamente incorporada ao estilo de Dino.
Trans-Siberian Orchestra abriu portas internacionais
Em 2016, aconteceu outra mudança importante. Depois de uma audição nos Estados Unidos, Dino foi escolhido para integrar o Trans-Siberian Orchestra, projeto conhecido por suas enormes produções de rock sinfônico e pelas turnês de fim de ano. Ele passou a participar regularmente das apresentações da banda.
Um exemplo interessante dessa fase é “Good King Joy”, apresentada por Dino Jelusick e Jeff Scott Soto durante um show do Trans-Siberian Orchestra em Houston, em 2018.
A experiência foi importante não apenas pelo tamanho das turnês, mas também porque colocou Jelusick em contato direto com músicos de altíssimo nível. Ao longo dos anos, ele colaborou ou trabalhou com nomes como Mike Portnoy, Joel Hoekstra, Tony Franklin, Virgil Donati, Kiko Loureiro, Jordan Rudess, Gus G., George Lynch, Michael Romeo e muitos outros.
Dirty Shirley: Dino ao lado de George Lynch
Em 2018 e 2019, Dino gravou um dos projetos mais interessantes de sua carreira: Dirty Shirley, ao lado de George Lynch, guitarrista conhecido principalmente por seu trabalho no Dokken e no Lynch Mob.
O álbum homônimo saiu em 2020 e contou também com Will Hunt, do Evanescence, na bateria. Dino gravou vocais e teclados e participou da composição das músicas.
A música “Here Comes the King” é uma ótima demonstração do que ele conseguia fazer naquele momento.
E existe uma curiosidade especialmente interessante aqui: na apresentação do projeto, a própria Frontiers descreveu o resultado da combinação entre Lynch e Jelusick fazendo uma comparação bastante direta com dois dos maiores vocalistas do hard rock e do heavy metal: Ronnie James Dio e David Coverdale.
Foi assim que David Coverdale descobriu Dino
A conexão com o Whitesnake acabou acontecendo de maneira quase natural.
Em 2020, durante as sessões remotas da pandemia, Dino participou de uma gravação de “Stormbringer” com Joel Hoekstra, guitarrista do Whitesnake. Hoekstra percebeu que, além de cantar, Jelusick também tocava teclados.
Quando David Coverdale procurava um novo integrante para a turnê de despedida do Whitesnake, Hoekstra apresentou o trabalho de Dino ao vocalista. Coverdale gostou do que ouviu e telefonou pessoalmente para Jelusick.
Em julho de 2021, o Whitesnake anunciou oficialmente Dino como novo integrante. Coverdale o chamou de um músico extremamente talentoso e destacou que a banda já acompanhava seu trabalho havia algum tempo.
Dino assumiu principalmente teclados e vocais de apoio, ao lado de Michele Luppi. A experiência culminou em uma turnê europeia do Whitesnake em 2022.
Para quem quiser entender por que aquela contratação fazia tanto sentido, vale ouvir a versão de “Stormbringer” gravada por Dino com Joel Hoekstra, Virgil Donati e Tony Franklin. Foi justamente uma das gravações que ajudaram a abrir a porta do Whitesnake.
Whom Gods Destroy mostrou outra faceta
Se o Whitesnake apresentou Dino a uma audiência ainda maior do hard rock, o Whom Gods Destroy mostrou que ele não queria ficar limitado ao papel de cantor de classic rock.
Formado por Derek Sherinian e Ron “Bumblefoot” Thal, o grupo colocou Jelusick diante de composições muito mais progressivas e complexas. O álbum de estreia, Insanium, foi lançado em 2024 e reúne elementos de progressive metal, hard rock, metal contemporâneo e passagens bastante técnicas.
A faixa “In the Name of War” é provavelmente a melhor porta de entrada para entender essa faceta.
Já “Over Again” mostra um lado mais pesado e moderno da voz de Dino.
A escolha de Jelusick para o projeto não foi casual. Derek Sherinian chegou a dizer que a voz do croata tinha justamente a combinação de elementos de Dio e Coverdale que procuravam para aquela música.
O que torna a voz de Dino Jelusick tão especial?
É justamente aqui que Dino se diferencia de muitos vocalistas que surgiram no hard rock nas últimas décadas.
Sua voz é poderosa, firme e extremamente encorpada, mas não depende apenas de volume ou de notas agudas. Ele consegue cantar com uma sustentação que lembra a autoridade dos grandes vocalistas clássicos, enquanto alterna facilmente entre registros mais graves, médios rasgados e agudos muito fortes.
A comparação com David Coverdale é inevitável. Existe uma característica bluesy no timbre, uma maneira de atacar determinadas palavras e uma rouquidão controlada que remetem diretamente ao vocalista do Whitesnake.
Ao mesmo tempo, há uma potência e uma precisão que lembram Ronnie James Dio. Não apenas pela capacidade de alcançar notas altas, mas pela maneira como Dino consegue manter a voz firme mesmo quando a música exige agressividade.
Por isso, talvez a melhor maneira de explicar Jelusick seja dizer que ele soa como uma fusão do melhor de David Coverdale com Ronnie James Dio. Não como uma simples imitação dos dois — e essa é justamente a diferença importante. Dino absorveu elementos desses gigantes, mas desenvolveu uma identidade própria.
É uma característica que o próprio histórico de sua carreira deixa evidente: ele consegue cantar hard rock tradicional, metal progressivo, rock sinfônico e material mais contemporâneo sem parecer deslocado em nenhum desses ambientes.
Dino Jelusick hoje
Depois de anos trabalhando como convidado, músico de turnê e integrante de diferentes projetos, Dino passou a concentrar cada vez mais energia no Jelusick, banda que leva seu sobrenome.
O projeto permite que ele tenha maior controle sobre composição, direção musical e identidade artística. O site oficial do Jelusick atualmente destaca músicas como “Seasons”, “Power to the People” e “How Many Times”, além de anunciar uma nova turnê europeia para 2026.
A trajetória de Dino Jelusick é, portanto, curiosa por um motivo: ele não chegou ao topo simplesmente por ser um grande cantor. Chegou porque, desde muito jovem, demonstrou ser também compositor, multi-instrumentista e músico capaz de transitar por ambientes completamente diferentes.
Do garoto que venceu o primeiro Junior Eurovision em 2003 ao músico que recebeu uma ligação de David Coverdale, passou pelo Trans-Siberian Orchestra, George Lynch, Animal Drive e Whom Gods Destroy e hoje conduz seu próprio projeto, existe uma linha bastante clara: Dino Jelusick passou a carreira inteira tentando descobrir até onde sua voz poderia chegar.
E talvez seja justamente por isso que ele tenha se tornado um dos nomes mais interessantes da nova geração do hard rock e do metal.