Heavy metal e bom humor nem sempre parecem combinar. Para o Nanowar of Steel, porém, essa combinação é justamente a razão de existir. Formada em Roma, na Itália, a banda construiu sua carreira fazendo uma mistura peculiar de heavy e power metal, paródias, referências à cultura pop e um senso de humor que frequentemente transforma os clichês do próprio gênero em matéria-prima para suas músicas.


O resultado é uma banda que pode brincar com praticamente qualquer coisa sem abrir mão da qualidade musical. E essa talvez seja a principal característica do Nanowar: por trás das piadas, existe um grupo de músicos que leva a música extremamente a sério.


A própria banda já brincou com essa contradição em entrevistas. Ao comentar a maneira como é recebida pelo público, seus integrantes costumam insistir que fazer comédia é coisa séria. A ideia ajuda a entender por que o grupo consegue funcionar tanto para quem procura apenas diversão quanto para fãs de metal interessados nas referências musicais escondidas em suas composições.


De paródia de Manowar a Nanowar of Steel
O nome da banda já entrega uma de suas principais inspirações. O Nanowar começou fazendo uma paródia do Manowar, um dos grupos mais conhecidos do heavy metal tradicional. A brincadeira, entretanto, acabou ganhando vida própria e se transformou em uma carreira que já dura mais de duas décadas.


Ao longo dos anos, o grupo passou a explorar diferentes estilos dentro e fora do metal. Uma música pode soar como power metal épico; outra pode incorporar disco, folk, música eletrônica ou elementos de outros gêneros. A graça está justamente em reconhecer essas referências e perceber como elas são exageradas ou colocadas em contextos completamente inesperados.


Essa abordagem também explica a quantidade de referências à cultura italiana, à televisão, à internet, à comida, ao futebol e a outros elementos da cultura popular presentes na obra da banda.


A derrota de Baggio virou uma música épica


Um dos melhores exemplos dessa mistura está em “Pasadena 1994”, faixa do álbum Dislike to False Metal, de 2023.


A música conta, como se fosse uma batalha militar épica, a final da Copa do Mundo de 1994 entre Brasil e Itália, disputada no Rose Bowl, em Pasadena. A escolha do estilo não foi acidental: a composição é uma espécie de paródia do próprio conceito do Sabaton, banda sueca conhecida por transformar acontecimentos históricos e guerras em músicas de heavy metal.


E há uma participação que torna a brincadeira ainda melhor: Joakim Brodén, vocalista do Sabaton, canta em “Pasadena 1994”. Os integrantes do Nanowar explicaram que enxergavam aquela derrota italiana como uma espécie de “Waterloo” do futebol do país.


A música narra a partida como se os jogadores italianos fossem soldados enviados para uma batalha. Franco Baresi aparece como comandante da defesa, enquanto Roberto Baggio é apresentado como um dos protagonistas da ofensiva italiana.


E, claro, o clímax é justamente a disputa por pênaltis. Depois de uma partida que terminou empatada em 0 a 0, Baggio foi o último italiano a cobrar e mandou a bola por cima do gol de Cláudio Taffarel, garantindo involuntariamente a imagem que marcaria sua carreira para sempre.


O Nanowar transforma o episódio no equivalente a uma derrota militar italiana. O próprio grupo explicou que, apesar do conceito humorístico, a letra de “Pasadena 1994” é surpreendentemente séria: para os integrantes italianos, aquela derrota continua sendo uma espécie de trauma coletivo.


Um metal que brinca com o próprio metal
É isso que torna o Nanowar of Steel interessante. A banda não se limita a fazer músicas engraçadas acompanhadas por guitarras pesadas. Ela conhece profundamente os códigos do heavy metal e usa esse conhecimento para construir as piadas.


“Pasadena 1994”, por exemplo, funciona justamente porque reproduz com competência a grandiosidade de uma música do Sabaton. A diferença é que, em vez de falar sobre uma guerra, os italianos contam a história de uma final de Copa do Mundo.


O mesmo acontece em outras músicas. O grupo já brincou com clichês do power metal, com o universo dos “true metallers”, com cultura pop, comida, sexo, internet e até com problemas intestinais. O humor pode ser absurdo, mas a execução musical não é.


Essa combinação fez o Nanowar conquistar uma audiência internacional e transformar aquilo que poderia ser apenas uma banda de paródia em um projeto com identidade própria.


Humor, técnica e referências


Uma das maiores qualidades do Nanowar está justamente no contraste entre a aparência de brincadeira e a competência dos músicos. As composições são construídas com arranjos elaborados e referências que podem passar despercebidas em uma primeira audição.

Em Dislike to False Metal, por exemplo, “Pasadena 1994” representa o power metal épico; “Disco Metal” mistura heavy metal e disco music; “Chupacabra Cadabra” mergulha em uma abordagem mais extravagante; enquanto “Metal Boomer Battalion” brinca com a estética das grandes músicas de batalha do metal. O álbum foi apontado por veículos especializados como um dos trabalhos mais interessantes da trajetória da banda justamente pela variedade musical.


Para quem está acostumado com bandas que levam a própria imagem excessivamente a sério, o Nanowar of Steel oferece uma alternativa curiosa: uma banda que sabe fazer metal, mas prefere rir das regras do gênero em vez de simplesmente segui-las.


E talvez seja por isso que “Pasadena 1994” seja uma apresentação tão perfeita do grupo. Afinal, poucas bandas seriam capazes de transformar o pênalti perdido por Roberto Baggio em uma épica canção de guerra — e ainda chamar o vocalista do Sabaton para cantar.