Poucos álbuns da história do rock chegaram ao mercado carregando uma expectativa tão grande quanto Chinese Democracy, do Guns N’ Roses. Quando finalmente foi lançado, em 23 de novembro de 2008, o disco já havia passado por mais de uma década de atrasos, mudanças de formação, problemas de produção e expectativas quase impossíveis de satisfazer.

E talvez esteja aí a chave para entender sua recepção. Chinese Democracy não era necessariamente um álbum ruim. Pelo contrário: há ótimas músicas no disco. O problema é que ele chegou ao público como se tivesse a obrigação de justificar quase 15 anos de espera.

Um álbum que demorou demais para nascer

O Guns N’ Roses havia entrado nos anos 1990 como uma das maiores bandas do planeta. Appetite for Destruction havia se tornado um fenômeno mundial, enquanto Use Your Illusion I e Use Your Illusion II, ambos de 1991, consolidaram o grupo no topo do rock.

Mas a formação clássica começou a desaparecer.

Slash, Duff McKagan, Izzy Stradlin e outros integrantes deixaram o grupo, enquanto Axl Rose permaneceu como a principal figura da banda. O Guns N’ Roses continuou existindo, mas o processo de criação do sucessor de The Spaghetti Incident?, de 1993, tornou-se cada vez mais complicado.

O álbum que viria a ser Chinese Democracy começou a ser desenvolvido em meados dos anos 1990. Ao longo dos anos, músicos entraram e saíram, produtores foram substituídos e músicas foram regravadas diversas vezes.

O projeto ganhou uma fama quase maior que a própria banda.

A cada ano sem lançamento, Chinese Democracy se transformava mais em uma piada da cultura pop do que em um álbum aguardado.

A expectativa se tornou um problema

Esse é provavelmente o principal motivo pelo qual o disco foi tão criticado.

Quando um álbum demora dois ou três anos, o público espera um bom disco. Quando demora mais de uma década, a expectativa muda completamente.

O ouvinte passa a esperar algo revolucionário.

Chinese Democracy tinha que ser, ao mesmo tempo, o sucessor de Appetite for Destruction, a continuação de Use Your Illusion e a prova de que Axl Rose havia conseguido justificar todos aqueles anos de trabalho.

Era uma missão praticamente impossível.

Além disso, o próprio título do álbum havia se tornado uma espécie de símbolo da demora. Durante anos, jornalistas e fãs perguntavam quando finalmente Chinese Democracy seria lançado.

Quando ele finalmente chegou, em 2008, a pergunta já não era apenas “o álbum é bom?”.

Era:

“É bom o suficiente para ter levado 15 anos?”

E essa é uma comparação que nenhum disco conseguiria vencer.

O Guns N’ Roses que os fãs conheciam não estava mais ali

Outro problema foi a ausência da formação clássica.

Para muitos fãs, Guns N’ Roses significava a combinação de Axl Rose, Slash, Duff McKagan e Izzy Stradlin. Chinese Democracy foi gravado por uma sucessão de músicos e acabou sendo essencialmente um projeto de Axl.

O resultado foi um álbum muito diferente do Guns N’ Roses que havia conquistado o mundo no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990.

Não existe aqui o mesmo tipo de química entre guitarra e vocal que marcou Appetite for Destruction. Também não há a mesma sensação de banda tocando junta que aparece em Use Your Illusion.

Em seu lugar, Axl construiu um disco muito mais produzido, experimental e fragmentado, incorporando elementos de industrial, metal, hard rock, eletrônica e rock alternativo.

Para alguns fãs, isso soou como uma evolução. Para outros, parecia que o Guns N’ Roses havia perdido justamente aquilo que o tornava especial.

Mas há músicas realmente boas

É aqui que Chinese Democracy merece uma reavaliação.

A faixa-título, “Chinese Democracy”, mostra que Axl não estava simplesmente tentando repetir o passado. “Better” é provavelmente uma das melhores músicas do álbum, com um refrão forte e uma interpretação vocal bastante característica.

“There Was a Time” é outra composição particularmente interessante, enquanto “This I Love” apresenta um lado mais melódico e emocional.

Também existem momentos muito bons em “Street of Dreams”, “Catcher in the Rye”, “Madagascar” e “Sorry”.

O problema é que essas músicas foram analisadas durante anos antes mesmo de o álbum existir oficialmente.

Algumas versões circulavam em vazamentos. Outras foram apresentadas ao vivo. Trechos eram discutidos em fóruns e revistas.

Quando o álbum finalmente chegou, boa parte do público já tinha formado uma opinião sobre músicas que ainda nem conhecia oficialmente.

A produção virou parte da controvérsia

Chinese Democracy também foi criticado por sua produção.

O disco é extremamente elaborado. Há camadas de guitarras, efeitos, programação, teclados e diferentes tratamentos de voz.

Para quem esperava o som orgânico e direto dos primeiros discos, isso foi um choque.

Em Appetite for Destruction, a sensação é de uma banda tocando em uma sala. Em Chinese Democracy, muitas vezes parece que estamos diante de uma produção de estúdio construída peça por peça.

Essa diferença não significa necessariamente que uma abordagem seja melhor que a outra. Mas ela tornou o álbum muito mais difícil de ser aceito por quem esperava uma volta ao Guns N’ Roses clássico.

E Slash estava ausente

Esse talvez seja o elefante na sala.

A guitarra de Slash era uma das características mais reconhecíveis do Guns N’ Roses. Seu estilo ajudou a definir músicas como “Sweet Child o’ Mine”, “Welcome to the Jungle”, “Paradise City” e “November Rain”.

Em Chinese Democracy, Robin Finck, Buckethead, Ron “Bumblefoot” Thal, Richard Fortus e Paul Tobias, entre outros músicos, participaram das guitarras ao longo do processo.

Cada um trouxe uma linguagem diferente.

Buckethead, por exemplo, aparece com destaque em momentos como “There Was a Time” e “Sorry”, enquanto Robin Finck contribuiu para a estética mais pesada e experimental do disco.

Tecnicamente, não faltava talento.

Mas talento individual não substitui necessariamente a identidade construída por uma formação histórica.

O problema também foi Axl Rose

É impossível falar da recepção de Chinese Democracy sem falar de Axl Rose.

Durante os anos de produção, o vocalista passou a ser visto como alguém obcecado pelo projeto e incapaz de concluí-lo. As sucessivas mudanças de músicos e produtores alimentaram essa percepção.

Quanto mais o lançamento demorava, maior ficava a impressão de que Axl estava tentando produzir o álbum perfeito.

E quanto mais ele tentava aperfeiçoá-lo, mais distante o disco ficava da espontaneidade que havia caracterizado o Guns N’ Roses original.

O álbum acabou sendo vítima da própria ambição.

O disco envelheceu melhor do que sua reputação

Existe uma ironia na história de Chinese Democracy.

Em 2008, muita gente ouviu o disco tentando descobrir se ele justificava os 14 anos de espera. Hoje, é possível ouvi-lo simplesmente como um álbum de rock lançado em 2008.

E a experiência muda.

Sem a expectativa gigantesca, algumas das escolhas que pareciam estranhas passam a fazer mais sentido. A produção exagerada, os elementos eletrônicos e as diferentes abordagens de guitarra ajudam a mostrar que Axl não estava tentando fazer Appetite for Destruction 2.

Ele estava tentando criar um Guns N’ Roses diferente.

Isso não significa que todas as decisões funcionem. O álbum é irregular e provavelmente teria se beneficiado de uma produção mais enxuta e de uma seleção mais rigorosa das músicas.

Mas também é injusto tratá-lo simplesmente como um fracasso.

Chinese Democracy nunca poderia vencer

No fim, talvez Chinese Democracy tenha sido condenado antes mesmo de ser lançado.

Se fosse lançado em 1999, provavelmente teria sido recebido de outra maneira.

Se tivesse saído em 2002, também.

Mas depois de mais de uma década de espera, rumores, vazamentos, mudanças de formação e expectativas gigantescas, qualquer álbum teria dificuldade para satisfazer o público.

Chinese Democracy não conseguiu recuperar o Guns N’ Roses clássico — e talvez essa nunca tenha sido realmente a intenção de Axl.

O que ele entregou foi um disco experimental, ambicioso, excessivamente produzido e cheio de boas ideias. Algumas funcionam melhor que outras. Algumas músicas são excelentes. Outras são esquecíveis.

Mas o álbum merece ser ouvido sem a sombra dos 15 anos que levou para chegar às lojas.

Porque, quando finalmente tiramos Chinese Democracy da equação “o álbum mais atrasado da história”, sobra uma pergunta muito mais interessante:

e se ele tivesse sido lançado simplesmente como o novo álbum de uma banda chamada Guns N’ Roses?

Provavelmente a história teria sido bem menos cruel com ele.