Há 41 anos, o Stress lançava Flor Atômica, seu segundo álbum de estúdio e um dos registros fundamentais dos primeiros anos do heavy metal brasileiro. Vindos de Belém do Pará, os músicos chegaram ao disco em um momento decisivo, com nova formação, contrato com uma grande gravadora e a responsabilidade de representar uma cena que ainda começava a se estabelecer no país.
A história do álbum começou a ganhar novos rumos depois das apresentações históricas do Stress no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 1983 e 1984. A banda chamou a atenção do público carioca e da imprensa, enquanto a Rádio Fluminense, conhecida como “A Maldita”, ajudava a criar a mística em torno do grupo ao apresentá-lo como vindo diretamente do “Inferno Amazônico” e como “a banda mais pesada do Brasil”.
A repercussão fez crescer os convites para apresentações e também a percepção de que o Stress precisava deixar Belém para avançar profissionalmente. No final de 1984, André decidiu permanecer no Rio de Janeiro. No início do ano seguinte, Roosevelt Bala também se mudou para a cidade, deixando seu emprego na Petrobras para continuar a história da banda.
Os outros integrantes não puderam acompanhá-los por questões familiares. Foi nesse momento que Alex Magnum, ex-Metal Pesado, e Bosco Gomes entraram na formação. A mudança também alterou o papel de Roosevelt, que passou a atuar exclusivamente como vocalista e frontman. Sem o baixo nas mãos, ganhou liberdade para correr e se movimentar pelo palco, criando uma performance física e intensa que se tornaria uma das marcas do Stress.
O contrato com a Polygram
O sucesso do Rock in Rio, realizado em janeiro de 1985, despertou o interesse das grandes gravadoras pelo público crescente do heavy metal brasileiro. O Stress recebeu propostas para participar de coletâneas, mas a banda queria um álbum próprio.
A oportunidade surgiu por meio do produtor João Augusto, que promoveu uma audição do grupo no Tok Studio, no Rio de Janeiro. Depois de ouvir algumas músicas, veio a frase que mudaria a trajetória da banda: “Vamos fazer! Tem mais músicas? Preciso de dez músicas para um LP.”
Havia, porém, um problema: o Stress ainda não tinha dez músicas prontas. O grupo precisou compor e finalizar boa parte do repertório em tempo recorde. Foi nesse período que nasceram ou foram concluídas músicas como “Não Desista”, “Tributo ao Prazer”, “Jennie” e “Esperando o Messias”.
O álbum também recuperou músicas do primeiro disco, como “Sodoma e Gomorra” e “Mate o Réu”, além de “Inferno Nuclear”, que havia aparecido na demo de 1984.
Entre as novas composições, “Não Desista” merece atenção especial. Criada praticamente às vésperas das gravações, a faixa procurava recuperar a velocidade e o peso característicos do Stress, já incorporando elementos do então crescente speed metal. Roosevelt criou o instrumental e André escreveu a letra.
A composição foi feita tão rapidamente que Roosevelt cantou a música pela primeira vez já no estúdio. E a gravação acabou ficando no álbum.
Um disco mais elaborado, mas menos brutal
Flor Atômica foi gravado no estúdio da Polygram, com aproximadamente 75 horas destinadas às gravações e à mixagem. A estrutura era muito superior àquela disponível para o primeiro álbum, mas a banda encontrou algumas dificuldades técnicas.
Um dos problemas envolveu as guitarras. O Stress tinha à disposição um Marshall JCM 900, mas a caixa utilizada não suportava o volume necessário para que o amplificador entregasse toda a distorção desejada.
O resultado foi um som menos pesado do que a banda pretendia. Ainda assim, as guitarras ficaram bem definidas, e o álbum ganhou uma produção mais organizada e tecnicamente elaborada que o trabalho anterior, embora tenha perdido parte da crueza e da brutalidade do primeiro LP.
Outra novidade veio dos teclados. Leonardo Renda participou de “Jennie”, “Flor Atômica” e “Esperando o Messias”, acrescentando uma dimensão melódica diferente ao repertório.
Os vocais também foram um desafio. As músicas eram cantadas em tons altos e exigiam bastante de Roosevelt. A última faixa gravada foi justamente “Jennie”. Depois de concluir a sessão, completamente desgastado, o vocalista encerrou sua participação nas gravações.
A comemoração aconteceu dentro do próprio estúdio, com champanhe e gritos celebrando o fim do trabalho.
O erro que entrou para a história
Flor Atômica ainda ficou marcado por um erro de edição bastante peculiar.
Na versão final de “Forças do Mal”, foi utilizada por engano uma gravação instrumental que havia sido preparada para possíveis apresentações em playback na televisão. Quando o problema foi descoberto, aproximadamente 10 mil cópias já haviam sido prensadas.
A banda tentou impedir o lançamento, mas acabou obrigada a aceitar a situação diante do risco de o álbum não chegar às lojas. Assim, as primeiras cópias de Flor Atômica carregaram o erro.
Somente em 2002 Roosevelt registrou os vocais da música. Essa versão apareceu posteriormente como faixa bônus no relançamento europeu de 2013.
Um álbum que levou o Stress para todo o Brasil
Lançado pela Polygram, Flor Atômica representou um salto enorme para o Stress. O grupo passava a fazer parte do catálogo de uma grande gravadora internacional em um momento em que o heavy metal brasileiro ainda dava seus primeiros passos.
O lançamento oficial aconteceu em junho de 1985, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. No mês seguinte, a banda retornou a Belém para apresentar o álbum diante de aproximadamente 6 mil pessoas.
A distribuição da Polygram também fez diferença. O disco chegou às principais cidades brasileiras e levou o nome do Stress a uma quantidade de fãs que uma banda independente dificilmente conseguiria alcançar naquela época.
A imprensa especializada recebeu o trabalho de maneira positiva, ajudando a consolidar o grupo entre os principais nomes da primeira geração do metal nacional.