Uma das músicas mais provocativas do rock brasileiro ganhou uma nova vida — e em um lugar bastante improvável. Anitta regravou “Bichos Escrotos”, clássico dos Titãs, em uma versão produzida pelo Tropkillaz para o filme Corrida dos Bichos, do Prime Video.

A releitura trocou a energia punk e visceral da gravação original por uma combinação de funk e música eletrônica, mas preservou justamente um dos elementos que tornaram a composição tão marcante: a ironia. E quem melhor para avaliar a nova versão do que Paulo Miklos, responsável pelos vocais da gravação original?

Miklos não apenas aprovou a releitura como entrou na brincadeira provocada pela enorme repercussão da música nas redes sociais. “Eu adorei a versão da Anitta produzida pelo Tropkillaz para Bichos Escrotos.”

Em entrevista ao Popline, reproduzida por diferentes veículos, o ex-Titãs explicou por que acredita que a interpretação funcionou tão bem. Para ele, a música sempre teve um componente de humor associado a uma crítica ao que seria considerado “refinado” pela sociedade. Na avaliação de Miklos, Anitta conseguiu preservar justamente essa característica ao cantar a música com uma espécie de “ironia fina”.

De “Cabeça Dinossauro” para o funk

A versão de Anitta faz parte da trilha sonora de Corrida dos Bichos, novo filme dirigido por Fernando Meirelles, e ganhou uma roupagem completamente diferente daquela apresentada pelos Titãs em 1986.

” Bichos Escrotos” originalmente integra Cabeça Dinossauro, terceiro álbum dos Titãs e um dos discos fundamentais do rock brasileiro dos anos 1980. A música foi composta por Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis e já fazia parte do repertório da banda antes mesmo de ser registrada em estúdio.

A composição também tem uma história diretamente relacionada à censura. Os Titãs já apresentavam “Bichos Escrotos” ao vivo desde 1982, mas a música só pôde ser gravada posteriormente. Mesmo depois de entrar em Cabeça Dinossauro, sua execução nas rádios continuou enfrentando restrições por causa da letra.

Quatro décadas depois, a mesma música chega a uma geração que talvez nem tivesse contato com a versão original — agora por meio de uma das maiores estrelas da música pop brasileira.

Sérgio Britto também aprovou a releitura

Paulo Miklos não foi o único integrante dos Titãs a elogiar a nova versão.

Sérgio Britto, um dos compositores de “Bichos Escrotos”, também comentou a gravação e destacou que, apesar da distância musical entre as duas versões, existe uma conexão interessante entre a linguagem da música original e o funk.

Britto classificou a releitura como surpreendente e anárquica e afirmou que a nova interpretação apresenta uma leitura pertinente daquilo que os Titãs buscavam dizer com a composição.

É justamente essa distância entre as versões que torna o lançamento interessante. A música continua sendo a mesma, mas o contexto mudou completamente.